A violência no futebol brasileiro - Parte 2



No início da semana publiquei a primeira parte sobre o perfil dos torcedores violentos no Brasil, mostrando que, caso não sejam tomadas medidas mais efetivas, dificilmente o cenário atual será alterado, muito pelo contrário, pois corre-se o risco de em breve algum jogador se lesionar gravemente ou até perder a vida em um atentado como da semana passada.

Apenas como fundamentação do comportamento humano, as duas principais energias vitais do ser humano são a sexualidade e a agressividade.  No livro " O mal-estar na cultura" Freud descreve com detalhes que os desejos de sexualidade e agressividade do ser humano são reprimidos em troca de uma convivência mais harmoniosa.  Caso a agressividade não seja externada de forma saudável a violência seja a única forma da agressividade ser extravasada, ainda mais em jovens de origem mais pobre como o perfil da pesquisa detectou.

Jovens reunidos em grupos violentos se sentem ainda mais encorajados de extravasar essa agressividade, como Freud também escreveu no livro "Psicologia das massas e a análise do eu". As pulsões violentas acabam não sendo mais reprimidas quando os indivíduos andam em grupos, e todo os filtros morais individuais ficam inócuos e a violência é extravasada sem pudor.

Portanto é possível compreender que pessoas violentas sempre irão existir e é função do poder público inibir e reprimir com justiça esse tipo de comportamento.

Quando se observa a situação na Europa, ainda existem grupos de torcedores violentos e em muitos casos são até piores, pois estão associados a grupos políticos de extrema direta, racistas, xenófobos, fundamentalistas e homofóbicos, neonazistas, neofascistas que estão preocupantemente crescendo em vários países europeus, além de também estarem ligados ambientes de drogas e armas.

Na Europa a sociedade reagiu, pois é menos tolerante com a violência em todos os ambientes públicos em comparação com certa complacência da sociedade brasileira a este tema. A polícia europeia ainda não conseguiu resolver todos os problemas, mas ocupou e pacificou espaços públicos, reduzindo drasticamente a violência nos estádios.

Uma grande mudança na forma de reduzir a violência na Europa foi o famoso Relatório Taylor, implementado em janeiro de 1990 que foi coordenado pelo juiz aposentado lorde Taylor de Gosforth. O estudo aprofundou as causas e consequências do hooliganismo e fixou medidas de prevenção e punição.

Foram feitas recomendações com o intuito de planejar, organizar e preservar os estádios pensando-os como espaços públicos, colocando o espetáculo esportivo como direito do consumidor e do cidadão.

As principais medidas foram as seguintes:

  • Criação de um calendário organizado;
  • Venda antecipada de season tickets;
  • Lugares marcados;
  • Limpeza;
  • Policiamento ostensivo;
  • Mudança na legislação com agravamento das penas;
  • Comprometimento de todos os stakeholders do ambiente futebol;
  • Controle ostensivo de bebidas alcoólicas;
  • Proibição de assistir aos jogos em pé;
  • Retirada das cercas e divisórias nos estádios.
As palavras segurança, transporte e conforto foram as que mais apareceram no relatório e foram apontadas como condições essenciais à paz entre os torcedores. Obras de acesso aos estádios e planos de segurança no estádio e nos arredores também foram fundamentais no planejamento e na organização dos jogos de futebol.

Em nível de Brasil o autor sugere medidas gerais como multa financeira para agremiações reincidentes, asfixiar o fluxo financeiro de setores de torcidas ligadas a lavagem de dinheiro de traficantes e infiltração de policiais entre outras.

Além dessas medidas as sugestões que o livro propõe são as seguintes:

Curto prazo: Punição
  • Aplicação rigorosa do Estatuto do Torcedor, do Código de Defesa do Consumidor e da Constituição;
  • Trabalho integrado entre Polícia Militar e Civil;
  • Treinamento específico da segurança pública e privada como psicossociologia da multidão e estratégias e táticas operacionais de controle e contenção de conflitos;
  • Escoar a multidão com rapidez tanto na entrada (abertura mais cedo dos portões) e na saída (aumento de transporte público, iluminação pública e policiamento ostensivo)
Médio prazo: Prevenção
  • Ocupação e monitoramento das redes sociais;
  • Quebra de sigilo postal, telefônico, eletrônico,  bancário e fiscal das torcidas organizadas;
  • Auditoria nas contas das torcidas organizadas;
  • Recrutamento, seleção, formação e treinamento de stewards (preparado pelos clubes e federações para ajudar os torcedores) e embaixadores de fãs (grupos preparados para atuar como complemento à polícia nos arredores do estádio).
Longo prazo: Reeducação
  • Campanhas de pacificação, palestras com especialistas, envolvimento de jogadores, clubes, mídia;
  • Ingressos promocionais para famílias, mulheres, crianças e idosos;
  • Intensificação de atividades sociais e assistenciais como doação de alimentos, agasalho, sangue, órgãos;
  • Parceria entre autoridade públicas e torcidas organizadas, federações e confederações;
  • Disque denúncia específico das torcidas organizadas.

Como observado na Europa, tudo começou em janeiro de 1990 e podemos ver já há duas décadas como o ambiente dos estádios tiveram drástica mudança.

Como frequentador de estádios há mais de 40 anos, não há dúvida que as novas arenas ajudaram bastante em boa parte do comportamento, mas o ambiente hostil e agressivo ainda impera mesmo com as novas arenas.

A adoção de torcida única não teve a solução esperada, pois vemos repetidamente ocorrências de brigas entre torcedores em outras regiões da cidade e até nas estradas.

Mudar o cenário atual depende de muita vontade política de todos os stakeholders, mas em alguma momento é necessário levar esse tema adiante com firmeza, pois em breve teremos mais notícias desagradáveis e/ou até mais graves do que os fatos ocorridos no jogo entre Sport e Fortaleza na semana passada.




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