Tenho feito várias publicações e participei de estudos com outros especialistas sobre esta matéria e baseado no material que já publicamos segue abaixo um comparativo das premissas entre o que nosso grupo de especialistas propôs em comparação às propostas da CBF:
1) Aumento do número de jogos de clubes sem calendário anual
As propostas da CBF vão ao encontro do que já propusemos, que é o aumento no número de jogos para clubes sem calendário anual visando fortalecer toda a cadeia produtiva direta e indireta de várias regiões do país, bem como uma redução de jogos dos clubes da série A que disputam as competições internacionais.
2) Pré-temporada de quatro semanas
Nos estudos que publicamos a pré-temporada é uma etapa fundamental para o preparo físico, técnico e coletivo dos clubes e, pela proposta da CBF, não existe um período nem próximo das quatro semanas. A temporada 2025 para a maioria dos clubes terminará no dia 7/12 e os estaduais estão marcados para iniciar em 11/1.
Na pesquisa que efetuamos com gestores e torcedores, ambos foram favoráveis a pré-temporada de quatro semanas.
Como as semifinais e finais da Copa do Brasil serão disputadas de 10/12 a 21/12, os dois clubes finalistas terão apenas um intervalo de 20 dias entre o final da temporada 2025 e início da temporada 2026.
O mesmo pode ocorrer caso algum clube brasileiro dispute o torneio Intercontinental da FIFA, que será disputado entre 10/12 a 17/12.
Se os clubes mantiverem 30 dias de férias, praticamente não haverá pré-temporada. Caso os clubes decidirem voltar às atividades no dia 2/1, a pré-temporada terá por volta de 10 dias. Com a proposta apresentada, os clubes da série A que não tiverem mais calendário após 7/12 provavelmente terão entre 3 a 10 dias de pré-temporada, totalmente contrário a nossa proposta de quatro semanas. Cenário ainda mais complicado para os quatro semifinalistas da Copa do Brasil que terão menos tempo ainda.
2) Datas FIFA
A proposta da CBF não considera "proteger" as três datas FIFA na temporada 2026, mantendo a mesma situação das últimas temporadas onde os clubes voltam a disputar jogos no dia seguinte ao jogo da seleção brasileira. O diretor de competições Júlio Avelar apenas mencionou como uma possiblidade "proteger" as três datas a partir da temporada 2027 mas sem dar certeza.
Nossa proposta é que as três datas sejam "protegidas" e que os jogos do calendário nacional sejam retomados apenas no final de semana seguinte a jogo da seleção brasileira, principalmente devido ao elevado número de jogadores que são convocados para as demais seleções sul americanas e que são peças importantes dos clubes brasileiros.
Torcedores e gestores foram favoráveis a parada nas Datas FIFA "protegendo" as três datas.
3) Campeonato Nacional
A adoção do Brasileirão da Série A durante toda a temporada, com início dia 28/1 até 2/12 e a Supercopa do Brasil sendo disputada dia 24/1 vai ao encontro da nossa proposta e também corrobora com a pesquisa que fizemos com gestores e torcedores que aprovam a competição sendo disputada em 10 meses.
A Série B começará após o final dos estaduais e não terá grandes mudanças, apenas um aumento do tempo da competição.
As propostas para as séries C e D também vão ao encontro da nossa proposta, com mais clubes e invertendo a pirâmide atual do número de jogos, com aumento de 26% no número de clubes com calendário anual.
Uma ideia que achei positiva foi o aumento para 28 clubes na Série C a partir de 2028 com jogos de turno e returno em dois grupos de 14 clubes e também com o descenso de seis clubes para a Série D e com acesso de 6 clubes, abrindo mais o funil.
O aumento para 96 clubes na Série D também considero positiva pelos mesmos motivos, mas com uma ressalva, a fórmula de disputa em jogos eliminatórios a partir da segunda fase. Os 64 clubes classificados poderiam disputar mais uma fase de grupos de 4 com turno e returno com os 16 primeiros colocados disputando as seis vagas em mata-mata. Datas disponíveis existem pois o término da Série D está previsto para 25/10.
Na nossa proposta sugerimos a criação da Série E, que seriam disputadas em 27 divisões estaduais com a participação dos demais clubes profissionais do país com as federações estaduais definindo fórmulas de disputa e número de clubes por divisão onde for necessário.
A série E poderia ser disputada durante todo a temporada e os 882 clubes teriam calendário anual, e não apenas os 192 clubes do novo calendário, movimentando muito mais receitas diretas e indiretas.
4) Copa do Brasil
O aumento para 126 clubes em 2026 e 128 clubes em 2027 vai ao encontro do que propusemos, tornando a competição mais democrática. A ideia dos quatro campeões das Copas Regionais além dos campeões da Série C e D entrarem na terceira fase são positivas pois dão maior importância para os campeões das duas séries nacionais e das Copas Regionais.
Outro acerto é a final ser disputada em jogo único em campo neutro e após a final da Série A, fechando a temporada com uma final importante, algo que é comum nas principais ligas europeias.
Por outro lado, manter jogos de ida e volta na fase cinco, oitavas, quartas e semifinal são contrárias a nossa proposta de jogo único em todas as fases. Seriam quatro datas de meio de semana disponíveis para os clubes poderem recuperar seus jogadores e se prepararem melhor para os jogos do final de semana.
Na pesquisa que efetuamos os torcedores preferiram o formato de jogo único em todas as fases, já os gestores preferiram o modelo de ida e volta. Como a CBF provavelmente não ouviu os torcedores, a preferência dos gestores acabou prevalecendo.
5) Copas Regionais
A proposta da criação da Copa Sul-Sudeste e o desmembramento da Copa Verde em Copa Norte e Copa Centro Oeste, com datas e período fixo é uma boa ideia dentro da premissa dos clubes médios e pequenos terem mais calendário durante a temporada bem como, além do título, dar vaga na terceira fase da Copa do Brasil.
Na pesquisa que efetuamos tanto gestores como torcedores preferiram que a competição seja disputada num único semestre, apenas com a divergência do número de datas. Os gestores prefferiram 10 datas, que foi a escolhida, já os torcedores preferiam oito datas.
Com relação a Copa Sul-Sudeste, gestores e torcedores foram favoráveis desde que os clubes das Séries A e B não disputassem a competição. Clubes que disputarem as competições da Conmebol não poderão participar, mas os demais clubes poderão participar.
O ponto de atenção é a não participação de clubes que disputarem torneios da Conmebol nas copas regionais, principalmente clubes do Nordeste, que são grandes marcas regionais que atraem torcedores e valorizam a competição mas, por outro lado, é uma oportunidade de outros clubes se destacarem.
6) Campeonatos Estaduais
A redução para 11 datas, mais do que um acerto, considero um caminho a ser aperfeiçoado, pois na pesquisa que efetuamos tanto gestores como torcedores são favoráveis a redução de datas, mas os gestores preferiram 10 datas e os torcedores seis.
Uma sugestão das nossas premissas seria utilizar parte das datas FIFA do primeiro semestre para a disputa dos estaduais, reduzindo o número de datas do calendário recorrente.
A CBF disponibilizou nove finais de semana e dois meios de semana para os estaduais e consideramos que deveria ser invertido, com apenas as duas finais sendo disputada nos finais de semana e as outras nove rodadas sendo disputadas no meio de semana, priorizando o Campeonato Brasileiro, o principal produto do calendário, para jogos no final de semana.
7) Calendário Europeu
O diretor de competições mencionou várias vezes na apresentação a preocupação em "proteger" o campeonato brasileiro com a paralização durante a Copa do Mundo Masculina em 2026, Copa do Mundo Feminina em 2027, Copa América em 2028 e Copa do Mundo de Clubes em 2029.
São no mínimo 30 dias de paralização, com exceção da Copa do Mundo Masculina, que deve ter paralisação de 50 dias.
Como praticamente não teremos pré-temporada em janeiro, os clubes terão mais tempo de preparação durante a parada do meio do ano. Com esta situação teremos um calendário europeu para os jogadores e um calendário gregoriano para as competições.
A nossa proposta sempre foi a adoção do calendário europeu para as competições, pois esses 30 dias de paralização não atrapalhariam o calendário, muito pelo contrário, seriam no mínimo oito datas a mais no calendário.
Na pesquisa os torcedores foram favoráveis ao calendário europeu, já os gestores preferiram o calendário gregoriano. Com o início dos estaduais em 11/1, a falácia de que não dá para ter jogo no verão está enterrada e a nossa sugestão é que, com a adoção do calendário europeu, os jogos poderiam ser disputados apenas a noite durante o alto verão.
Com a adoção do Calendário Europeu os clubes brasileiros poderiam jogar torneios de pré-temporada na Europa e nos Estados Unidos, expondo as marcas com jogos com as grandes marcas europeias.
8) Conclusão
No geral considero que as mudanças são positivas, mostram um caminho de melhoria e os clubes pequenos e médios serão os mais beneficiados com as propostas, pois terão mais jogos durante a temporada, mas sem mudanças estruturais relevantes.
Para os clubes que disputarão a primeira divisão do Brasileirão a pré-temporada continuará sendo sacrificada, com tempo insuficiente de preparação. A "proteção" das três datas nos jogos das seleções ainda é uma incógnita.
A Copa do Brasil terá redução de apenas uma data para clubes que disputarem torneios da Conmebol e até três datas para os demais. Poderia ser reduzido mais quatro datas caso todas as fases fossem disputadas em jogo único.
A maior redução de datas será nos estaduais de São Paulo e Rio de Janeiro (quatro datas), pois os demais estaduais já tem datas muito semelhantes às 11 datas sugeridas.
Para os clubes da Série A do Rio de Janeiro e São Paulo que não disputarão torneios da Conmebol haverá um redução de sete datas na temporada, de 66 para 59 datas. Para os clubes que disputarem torneios da Conmebol a redução será de cinco datas, de 64 para 59 no calendário nacional.
Para clubes da Série A de Minas Gerais e Rio Grande do Sul que não disputarão torneios da Conmebol a redução será um pouco menor, pois o estadual já é disputado em 12 datas, caindo de 63 para 59 datas. Para os clubes que disputarem torneios da Conmebol a redução será de duas datas, de 61 para 59.
Clubes que disputarem as Copas Regionais terão calendário nacional maior, com 10 datas adicionais para o Sul-Sudeste, duas datas adicionais na Copa Norte e Copa Centro Oeste. Apenas os participantes da Copa do Nordeste haverá uma redução de 12 para 10 datas.
O maior questionamento é porque "proteger" o mês de junho, com paralização das competições nacionais e não adotar o calendário europeu também para as competições e não apenas para os jogadores, pois teria ganho de no mínimo oito datas no calendário, não teria interrupção das competições no meio da temporada e teria um alinhamento com o calendário mundial, permitindo que os clubes brasileiros possam excursionar na pré-temporada e realizar jogos preparatórios com os grandes clubes europeus.
Outro questionamento é porque os torcedores não foram ouvidos na formatação do novo calendário? Na pesquisa que efetuamos houve concordâncias mas também discordâncias. Coincidentemente as sugestões dos gestores foram muito semelhantes às medidas que serão implementadas a partir de 2026.
Comparando com o calendário inglês, país com mais jogos na temporada, a diferença do novo calendário do futebol brasileiro para os clubes que disputarem torneios da Conmebol é de nove jogos a mais do que os ingleses, exatamente o período de pré-temporada ideal.
Como diz o ditado "não podemos esperar resultados diferentes fazendo a mesma coisa" e a CBF resolveu deixar de repetir para fazer mudanças interessantes que podem ser benéficas principalmente para a base da pirâmide e cuidar desta base é fundamental para todo o ecossistema do futebol brasileiro. Espero que seja apenas o primeiro passo de uma mudança mais profunda.
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