Nesta última semana infelizmente tivemos mais um ato de violência de torcedores organizados contra jogadores. Desta vez ocorreu no jogo Sport e Fortaleza pela Copa do Nordeste. No ataque seis atletas do Fortaleza tiveram que ser atendidos no hospital devido ferimentos.
Além da violência entre os torcedores, agressões aos jogadores tornaram-se atos recorrentes nos últimos anos:
Este fenômeno da violência nos estádios não é atual, muito pelo contrário. O Brasil é um dos países mais violentos do mundo, liderando o ranking mundial de homicídios em números absolutos de acordo com relatório da ONU de 2023. Como a violência no futebol não é um fato isolado, mas sim inserida num contexto mais amplo, não é possível isolar o fenômeno apenas dentro do futebol.
O pesquisador Maurício Murad escreveu o livro "A violência no Futebol" e neste livro constam as razões e um raio X sobre a violência no futebol brasileiro. Segundo o livro, estima-se um total de 2,5 milhões de membros integrantes em cerca de 700 torcidas organizadas no Brasil e os dados dos torcedores violentos coletados pelo autor são os seguintes:
- Cerca de 5% a 7% dos torcedores organizados são causadores da violência;
- Infiltração de grupos armados, perigosos e treinados, envolvidos em práticas graves de violência e delitos, não raro ligados ao tráfico de drogas e armas dentro das torcidas organizadas;
- Desde 2005 esses grupos violentos começaram a gerar conflitos entre torcedores do mesmo clube e até da mesma torcida, criando subdivisão dentro das próprias torcidas organizadas, com facções de crime e do tráfico;
- Faixa etária entre 15 e 24 anos;
- 71% são desempregados ou estão na informalidade;
- São provenientes de quase todas as faixas de renda e escolaridade, mas a maioria vem da classe média baixa, com nível escolar entre a quinta série do ensino fundamental e o segundo ano do ensino médio, embora também haja universitários;
- Predomínio de homens, com apenas 15% de mulheres;
- Relação com o crime organizado, gangues urbanas, tráfico de drogas ou cambistas;
- Treinamento em lutas marciais, uso de tática militares e utilizam a prepotência e covardia como comportamento regular;
- Consumo de álcool e drogas ilícitas. Essa mistura é uma das causas potencializadoras da violência no futebol e em quase todos os outros segmentos;
- Comportamento machista, exibicionistas, prepotentes, fortes. A visibilidade excessiva na mídia dos atos violentos causa uma espécie de "heroísmo".
Além dos dados acima, questões sócio econômicas como a degradação dos valores da sociedade também são fatores que influenciam de forma importante neste cenário. A perda de importância e espaço social por parte da família, da escola e demais instituições básicas acaba influenciando toda a vida cultural de um país. Essa situação macro contribui para as práticas de violência espalhadas pela sociedade brasileira.
Se a família e a escola perdem sua essência as consequências e seus efeitos tendem a se generalizar por todo o tecido social, deixando transparecer os estragos que decorrem dessas falhas do processo de formação do indivíduo.
Segundo a pesquisa, muitos torcedores violentos afirmam que a torcida organizada é a sua "verdadeira família" pois, como não têm identidades sociais devidamente construídas na família e na escola, esses torcedores se apegam a qualquer outro grupo que lhes dê algum sentido e significado, principalmente os jovens, que muitas vezes são "adotados" por esses coletivos de transgressão e delito.
Como o futebol é um referencial aglutinador no Brasil e no mundo, a paixão pelo clube, suas conquistas e até pelas cores e símbolos do clube exercem uma força de atração, criando envolvimento passional, um compromisso, e uma necessidade aguerrida de luta e de defesa do seu clube como se fosse uma defesa de si mesmo, uma identificação aguda que esses torcedores não têm com nenhuma outra coisa em sua vida.
Como a família e a escola estão perdendo a referência e como elementos inibidores de delitos em parte da sociedade brasileira, somados a corrupção e impunidade na estrutura social brasileira, com falta de eficácia de governos, polícia e justiça, esses jovens se sentem "autorizados" e cometerem esses delitos, dando origem a um contexto propício à violência.
Outro fator de influência são os exemplos que vêm de cima. A agressão verbal e/ou física entre dirigentes, treinadores e jogadores, além de políticos e empresários, somados a forma sensacionalista que parte da mídia divulga atos de violência, também acabam influenciando no comportamento desses torcedores.
As condições do espetáculo também acabam influenciando. A infraestrutura dos estádios, melhoradas com as novas arenas, o transporte coletivo, a abordagem dos flanelinhas, a limpeza, o conforto, o preço dos ingressos, os cambistas, o preço e a qualidade dos serviços oferecidos, a abordagem da polícia, a confusão para compra de ingressos, a aglomeração para entrar no estádio também são potenciais fatores que podem desencadear comportamentos violentos dos torcedores.
Quando o indivíduo é bem tratado, respeitado como consumidor, como cidadão a tendência é que ele também se comporte da mesma maneira, como o exemplo do comportamento do cidadão no metrô e no trem. Quando há melhor tratamento há o favorecimento ao controle, à segurança, evitando violência e depredação.
A conclusão que é possível chegar é a seguinte:
Num país onde a violência permeia toda a sociedade, tanto de forma física, verbal e digital, tendo como base a degradação da família e da escola, bem como a ausência de um poder público inibidor da violência, nem com políticas públicas consistentes de inclusão social, milhões de jovens chegam à vida adulta sem formação, sem grandes perspectivas de mudança social nem oportunidades de trabalho.
Esse cenário é um prato cheio para o crime organizado e para torcidas organizadas, uma ligação que se acentuou nas últimas décadas, atrair esses jovens como "família" e para dar vazão às suas agressividades que se concretizam em atos violentos.
Esse caldo todo somado a um ambiente de intolerância, baixa tolerância à frustração, que além do ambiente físico, é catalisado nas redes sociais, ondem esses jovens podem ser tratados como "heróis" pelos seus atos de "bravura" ao defender seu clube e sua torcida, acabam se concretizando em fatos como da última semana ao redor da Arena Pernambuco.
Ao analisar os relatos acima, infelizmente chegamos a conclusão que o fato que ocorreu na última quarta feira não foi uma surpresa e, infelizmente, não será o último enquanto não haja ações mais efetivas.
Durante a semana publicarei um novo post com medidas adotadas na Europa e sugestões do autor para mudar o perigoso cenário atual.
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