Análise do novo calendário do futebol brasileiro - Parte 2



Na semana passada publiquei uma análise comparando as premissas que nosso grupo de especialistas consideram essenciais para melhorias no calendário com a nova proposta da CBF.

Avaliando várias publicações os principais acertos mais mencionados foram:

  • Campeonato da Série A durante toda a temporada;
  • Aumento de datas para a Série C;
  • Redução de datas dos estaduais;
  • Aumento de datas para clubes pequenos e médios;
  • Período fixo para as Copas Regionais.

Por outro lado as principais críticas foram:

  • Risco de perda de atratividade da Copa do Nordeste sem a presença de alguns dos principais clubes da região que disputarem torneios Conmebol;
  • Copa do Brasil elitizada;
  • Redução de datas para a primeira fase da Série D;
  • Sobreposição de datas da pré-Libertadores com rodadas do Campeonato Brasileiro;
  • Risco de esvaziamento dos estaduais com jogos paralelos às rodadas do Campeonato Brasileiro;
  • Pré-temporada e férias divididas em duas partes na temporada.

Além dessas percepções reparei que em nenhum momento foi mencionado a adoção do calendário europeu, que resolveria muito dos problemas de datas do calendário proposto e que justifico os motivos no post da semana passada, e também a falta de calendário anual para 82% dos clubes profissionais com registro na CBF.

Consideramos que a confecção do calendário deve ser analisado sob a perspectiva técnica, comercial e sistêmica e dentro das críticas acima, segue abaixo uma análise de cada item:

1) Férias e pré -temporada divididas em duas etapas

A Federação Internacional das Associações de Jogadores de Futebol Profissional (FIFPro) recomenda um período de férias de 28 dias sem viagem por clube ou seleção, treino ou compromisso de mídia, além de 28 de pré-temporada antes de qualquer competição. 

Dividir as férias e a pré-temporada em duas etapas de 28 dias como proposto pela CBF é totalmente contrário às recomendações técnicas e que vai impactar na temporada como um todo pois, como citamos no nosso estudo, durante o tempo sem treinos, ocorre um processo chamado “destreinamento”, que não representa recuperação, mas sim perda de capacidades físicas, evidenciada pela queda dos índices fisiológicos. Esse efeito, embora natural, exige uma retomada gradual das atividades para ser revertido com segurança.

Com o início das competições oficiais e a pressão por resultados, os clubes que encerraram a temporada anterior mais tarde são forçados a acelerar a readequação física e mental de seus elencos. Como consequência, os atletas tornam-se mais propensos a lesões ao longo de toda a temporada, e não apenas nos meses iniciais.

Além disso, o tempo reduzido prejudica o desenvolvimento técnico e limita a capacidade dos treinadores de consolidar seus conceitos táticos, comprometendo o desempenho coletivo e a qualidade do jogo. A isso se somam as pressões por resultados, que ocorrem antes mesmo de os times estarem prontos para responder de forma adequada, afetando também o aspecto psicológico dos jogadores — muitas vezes evidenciado na insegurança nas tomadas de decisão e na execução dos fundamentos técnicos.

Com o início dos estaduais com apenas 15 dias de pré-temporada e com o início da Série A duas semanas e meia depois é muito provável que os grandes clubes utilizem as primeiras rodadas dos estaduais como parte da pré-temporada e, após o início da Série A, priorizarem a competição nacional e esvaziarem os estaduais. 

Um estadual com menos datas ou com a entrada dos grandes clubes em fases mais adiantadas poderia dar mais tempo de férias e pré-temporada, melhorando o desempenho técnico, físico, coletivo das equipes o que valoriza a competição. 

2) Sobreposição de datas da pré-Libertadores com rodadas do Campeonato Brasileiro

Pelo que foi comentado os jogos da pré-Libertadores serão sobrepostos a quatro rodadas do Brasileirão, portanto teremos vários clubes com jogos a menos logo no início da competição e que posteriormente ficarão pendentes e com necessidade de serem encaixados em algumas janelas para serem disputados. 

Este foi um dos motivos da CBF tentar sem êxito retirar os clubes brasileiros da pré-Libertadores visando reduzir uma vaga nesta fase preliminar em troca de uma vaga adicional na fase de grupos.

Estas quatro datas se somarão às duas datas dos play-offs da Copa Sul-americana que já causam este tipo de problema de vários clubes com jogos a menos no Brasileirão.

3) Risco de perda de atratividade da Copa do Nordeste 

Em 2018 realizei uma pesquisa para a Liga do Nordeste, que organizava a competição, com o objetivo de aumento de público principalmente na fase de grupos e um dos insights da pesquisa com os torcedores foi que os principais clubes da região tivessem presença garantida.

Com a proposta da CBF os clubes da região que disputarem torneios da Conmebol não irão participar da competição. Em 2025 Bahia, Vitória e Fortaleza, três dos grandes clubes nordestinos, não estariam na Copa. Para 2026 é provável que Bahia e Ceará não disputarão a competição. 

Para estas grandes marcas do nordeste é melhor disputar como coadjuvante torneios da Conmebol em troca de poder ser campeão de um torneio muito importante para a região?

Para os torcedores e para o produto como um todo a falta de algumas marcas importantes pode afetar a atratividade e a percepção de valor atual?

Antes de garantir que pode haver perda de atratividade, precisaremos observar o que irá ocorrer no ciclo 2026 - 2029. 

4) Redução de datas para a primeira fase da Série D 

Em 2025 os clubes disputaram 14 jogos na fase de grupos. A partir de 2026 este número cairá para 10.  Depois da fase de grupos, tanto em 2025 como na nova proposta, todos os jogos serão disputados em mata-mata com jogos de inda e volta.

Apesar do acerto do aumento de clubes de 64 para 96 clubes, reduzir para 10 datas garantidas e jogar as próximas fases em mata-mata reduz o planejamento e a previsibilidade, evitando que os clubes invistam em elencos mais caros devido ao riso de eliminação precoce em mata mata, mesmo com bom desempenho na fase de grupos.

Como seis clubes subirão para a Série C no ano seguinte, uma proposta que poderia trazer maior previsibilidade e planejamento dos clubes poderia ser a seguinte:

Fase 1: 12 grupos de 8 clubes (jogos em turno e returno) com classificação dos quatro primeiros colocados;
Fase 2: 12 grupos de 4 clubes (jogos em turno e returno) com classificação dos primeiros colocados;
Fase 3: 2 grupos de 6 clubes (jogos em turno e returno) com os três primeiros de cada grupo subindo para a Série C;
Fase 4: Os primeiros colocados de cada grupo realizam a final em jogos de ida e volta para definir o campeão.

Com esta sugestão teríamos 32 datas entre as quatro fases, 10 datas a mais do que a proposta da CBF, com maior previsibilidade e com maior meritocracia para os melhores clubes. 

5) Criação de Série E

Como mencionado anteriormente, apesar do incremento de 26% no número de clubes com calendário regional ou nacional, 80% dos clubes ainda ficarão sem calendário após o final dos estaduais.

Visando aumentar o número de jogos para todos os clubes profissionais registrados na CBF a sugestão seria criar a Série E dividida entre os 27 estados.

Com esta sugestão todas as federações estaduais com uma ou  mais divisões teriam todas as divisões subordinadas à série D , foco sistêmico. Tomando como base a fórmula de disputa sugerida para a Série D, 32 clubes (os campeões das 27 sub-divisões estaduais mais cinco vice campões das cinco principais federações do ranking da CBF) subiriam para a série D e os três últimos colocados de cada um dos oito grupos da Série D seriam rebaixados para a Série E.

Desta forma todos os clubes do país teriam maior calendário durante toda a temporada com geração de muitos empregos diretos e indiretos, marcas regionais poderiam ter maior investimento, movimentando e incentivando toda a cadeia produtiva do futebol.

6) Copa do Brasil elitizada

A redução de apenas duas datas para clubes da Série A que não disputam torneios da Conmebol não pode ser considerado um grande ganho de datas. Menor ainda é a redução de apenas uma data para os clubes que disputarem torneios da Conmebol.

Fora esta questão da pequena redução de datas, apenas 12 dos 108 clubes que não disputam a Série A terão a oportunidade de jogar contra as grandes marcas do Brasil e em jogos de ida e volta, o que diminui bastante a chance de conseguirem avançar na competição.

Com esta situação a nova Copa do Brasil esta longe de ser democrática, mas sim elitizada. Em países europeus os clubes da Série A entram a partir da segunda ou terceira fase mas, por serem disputadas em jogos únicos, dão a oportunidade de mais clubes de todas as divisões disputarem jogos com as grandes marcas de país.

No estudo que efetuamos sobre a Copa do Brasil a adoção de um formato de jogo único em todas as fases permitiria liberar mais três datas no calendário nacional. As duas  fases iniciais poderiam continuar ocorrendo paralelamente à Copa Libertadores, como já acontece atualmente, sem comprometer o planejamento das equipes envolvidas.

Uma proposta dentro do que foi mencionado acima poderia ser a seguinte:

Total de clubes - 160 clubes
OBS: os 20 clubes da série A e mais 12 clubes entre os melhores da série B e campeões das Copas Regionais entrariam na fase 3 )

Fase 1: 128 clubes 
Fase 2: 64 clubes
Fase 3: 32 clubes +  32 clubes (20 clubes da série A e 12 clubes entre série B e campeões das Copas Regionais)
Fase 4: 32 clubes
Fase 5: 16 clubes
Fase 6: 8 clubes
Fase 7: 4 clubes
Fase 8: final

Estas mudanças deixariam a Copa do Brasil muito mais democrática, ampliariam a imprevisibilidade e o equilíbrio da competição. Disputas em jogo único, com sorteio sem bloqueio a partir da fase quatro, aumentariam as chances de clubes com menor orçamento avançarem às fases decisivas e até conquistarem o título e contribuiria para tornar o torneio mais atrativo tanto para o público quanto para patrocinadores e emissoras, fortalecendo o valor do produto.

7) Resumo

O calendário anual é composto por 104 datas (52 semanas) e o ideal seria os seguintes bloqueio de datas:

Férias: 8 datas
Pré-temporada: 8 datas
Datas FIFA: 15 datas
Torneios FIFA (clubes e seleções) e Conmebol (seleções): 8 datas
Total: 39 datas

Sobrariam 65 datas disponíveis para torneios continentais, nacionais, regionais e estaduais. Com a proposta da Copa do Brasil com jogo único em todas as fases e menos jogos para os clubes grandes nos estaduais as datas disponíveis teriam a seguinte sugestão:

Conmebol: 16 datas (Pré Libertadores + Fase de Grupos + Fase Mata - Mata)
Brasileiro Série A: 38 datas
Copa do Brasil: 6 datas
Estadual: 5 datas (opção de usar mais 3 datas FIFA de março)

Com a adoção do calendário europeu não haveria aumento de datas disponíveis, mas já estaria garantido que todos os jogadores teriam garantido o período de férias e pré-temporada ideal. Além desta garantia outro ganho é que a temporada brasileira não tenha interrupção de 30 dias no meio da temporada e estaria alinhada sistemicamente com os principais mercados do mundo do futebol. 

Outro motivo para esta alteração é a grande possibilidade do Mundial de Clubes da FIFA ser realizado a cada dois anos. Caso esta decisão for implementada todos os meses de junho serão bloqueados para torneios FIFA (Copa do Mundo de Seleções e Copa do Mundo de Clubes) ou Conmebol (Copa América).

Sem as sugestões acima teremos provavelmente o seguinte cenário:
  • Férias e pré-temporada inadequada
  • Sobreposição de datas entre pré-Libertadores e Campeonato Brasileiro da Série A
  • Risco de maior perda de valor dos estaduais
  • Temporada interrompida por 30 dias em todos os anos
  • Mais de 80% dos clubes sem calendário em grande parte da temporada
  • Queda da qualidade e vários jogos sem os principais jogadores devido excesso de jogos
Com base nestas análises a intenção é colaborar e enriquecer o debate e podermos ver um moderno calendário em nosso futebol possa ser alcançado.

OBS: Caso queiram receber o relatório completo com as premissas, deixem seu e-mail nos comentários.


Comentários