Nova pesquisa sobre torcidas brasileiras: Análise e oportunidades


Nesta segunda feira o jornal O Globo publicou uma nova pesquisa sobre as torcidas brasileiras com alguns recortes interessantes a serem analisados.

Um dos recortes que gostaria de aprofundar é o Grau de Fanatismo, onde 33,3% se consideram fanáticos, seguido pelos 26,7% que se consideram ocasionais, espectros diametralmente opostos. Os que se consideram regulares são 21% e os apaixonados são 18%.

Juntando os dois grupos, 51,3% podem ser considerados os mais engajados com seus clubes contra 47,7% menos engajados. Estatisticamente um empate técnico entre os dois grupos.

Estratificando  os dois grupos de maiores respondentes temos os seguintes dados:
Fanáticos: Homens jovens, principalmente na faixa entre 25 e 34 anos, que se declaram pretos ou pardos,, da região Nordeste e de cidades pequenas (até 50 mil habitantes) e do interior, com ensino fundamental e renda de um salário mínimo (classe D/E).

  • Os jovens usam mais roupas e acessórios, consomem mais notícias e se abalam com derrotas;
  • Os mais velhos que veem jogos com maior frequência;
  • O sentimento de pertencimento em relação aos clubes ainda é mais forte entre a população de menor renda.

Ocasionais: Mulheres entre 45 e 59 anos, brancas, da região Sul, moradoras de periferias (cidades em torno das capitais), de 50 mil a 500 mil habitantes  com ensino superior, renda acima de cinco salários (classe A/B).

Entre aqueles que deram as notas mais altas para avaliar seu fanatismo, 59,1% responderam “sempre” para consumir notícias sobre seus clubes e 56,4% para assistir todos os jogos de seu time. Já 32,2% estão sempre com roupas ou acessórios, enquanto 29,2% sempre se abalam com derrotas. Por fim, só 12,6% sempre deixam de fazer algo por causa de uma partida.

Algumas curiosidades se destacam na pesquisa:

Embora aqueles com renda menor se considerem mais fanáticos, são os com maiores rendimentos que dizem ver sempre os jogos, assim como os moradores das capitais. Estes também são os que mais usam roupas ou acessórios e isso mostra como o acesso maior, seja a estádios, streamings ou produtos, se impõe. Quando você mergulha nestes pontos específicos, as diferentes tensões sociais se entrelaçam, analisa Marina Dantas, pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas (Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas (GEFuT).

Parte dos dados da pesquisa do O Globo corroboram com o artigo Classifying Sport Consumers: From Casual to Tribal Fans (Classificando os consumidores de esportes: Dos fãs casuais aos tribais) onde a maioria dos torcedores fanáticos (tribais) são homens de 32 anos, com mais de 8 anos como membros de planos de Season Ticket (carnê da temporada) e que pretendem assistir aos jogos no estádio e na TV e comprar produtos do seu clube no futuro. 

Como a grande maioria dos fanáticos estão na região nordeste, com baixo potencial de consumo devido a faixa salarial e estarem distantes das cidades e estados dos seus clubes de coração (Flamengo, Corinthians, Palmeiras e São Paulo), o desafio é dos gestores de negócios destes clubes é definir quais estratégias a serem adotadas (aumentar engajamento visando audiência na TV e dados para atrair mais parceiros comerciais e/ou gerar novas receitas com produtos e serviços).

Para os clubes da região Nordeste o desafio é saber como monetizar de forma mais assertiva sua base de torcedores já que são os mais fanáticos do país. 

As regiões Norte e Centro Oeste também são potenciais a serem explorados pelos cinco grandes clubes com maior torcida na região, os quatro citados no Nordeste e o Vasco da Gama, pois são as duas regiões com menor número de torcedores que torcem para clubes da região.

No artigo Conceptualization and Measurement of Fan Engagement: Empirical Evidence From a Professional Sport Context (Conceitualização e Mensuração do Engajamento dos Torcedores: Evidências Empíricas de um Contexto Esportivo Profissional) os autores mencionam dois tipos de perfis de engajamento, os transacionais (onde há transacão comercial) e os não transacionais (onde não há transação comercial) , como citado acima, esstes dois perfis de engajamento podem ser ativados pelos clubes com grande torcida fora do seus estados e regiões para gerar mais receitas comerciais ou de relacionamento para engajamento.

Outro ponto a ser avaliado é o público diametralmente oposto aos fanáticos, os ocasionais, composto em maioria pelas mulheres. De acordo com a pesquisadora Marina Dantas ainda existem questões psicossociais que vão situar o futebol como esporte para homens. As mulheres podem até gostar, mas têm que se encaixar num modo de viver o futebol que é pensado majoritariamente por homens. E talvez isso impacte na percepção delas próprias de que são menos torcedoras em alguns momentos.

Ao analisar este questão da falta de pertencimento das mulheres no futebol masculino, existe uma oportunidade para o futebol feminino se aproximar e se relacionar com este público que não é só de mulheres brancas da região Sul com renda acima de cinco salários mínimos. Além da região Sul, as regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste podem ser onde haveria mais potencial para times de futebol feminino pois são as regiões com menos torcedores de clubes da região.

Laura Guarnier, Consultora Sênior de Strategies da Outfield, escreveu um artigo onde ela menciona que  um dos maiores erros que é pensar que a consolidação do futebol feminino depende exclusivamente da profissionalização e isso seria importar a lógica do masculino como única régua de sucesso.

O esporte amador, a várzea e o futebol universitário são territórios fundamentais para a consolidação simbólica da modalidade. Ali, mulheres se reconhecem como atuantes, visíveis e pertencentes, mesmo que fora da estrutura profissional. Práticas esportivas cotidianas ajudam mulheres a se perceberem como protagonistas, cidadãs do esporte e consumidoras legítimas de conteúdo, produtos e experiências.

Nesses espaços, o sonho convive com a rotina: nem toda mulher jogará profissionalmente, mas muitas seguirão jogando, acompanhando, comprando, torcendo e inspirando outras. Ignorar essa pluralidade seria limitar o próprio campo de expansão do futebol feminino.

Segundo a autora o futebol feminino brasileiro já decolou. A dúvida não é mais se vale investir, mas como garantir que esse voo tenha pista, estrutura e vento favorável para seguir em frente.

Os próximos anos podem marcar o início de um novo ciclo, não apenas como promessa de futuro, mas como estratégia coletiva de presente mas para isso é necessário enxergar para estruturar e uma das hipóteses mais promissoras para romper com o ciclo de promessas e frustrações no futebol feminino brasileiro está no investimento em dados estruturados, pois sem dados, os clubes continuarão sendo reféns de exceções e gestões heroicas e não de planejamento escalável.

Os dados são ferramentas de legitimidade, coordenação e projeção de futuro. São eles que ancoram decisões estratégicas, garantem transparência e constroem a ponte entre o valor simbólico da modalidade e sua sustentabilidade econômica.

Ampliando a questão dos dados estruturados para além do futebol feminino, para conseguir definir quais as melhores estratégias dos clubes visando gerar engajamento transacional ou não transacional em outras regiões do país fora das suas cidades sedes, uma gestão eficiente e eficaz de dados dos seus torcedores é fundamental para aumentar engajamento e geração de receitas tanto diretamente com produtos e serviços dos clubes bem como para atuais e potenciais parceiros comerciais que podem ativar de forma estratégica.

Com uma base da dados estruturados é possível por exemplo tentar entender o encolhimento das grandes torcidas (as sete maiores oscilaram negativamente) devido ao crescimento expressivo da parcela de brasileiros que dizem não torcer para nenhum clube. Um fenômeno que pode refletir o afastamento do torcedor mais ocasional ou desiludido e que pode ser um dado interessante até para o futebol feminino.

Referências:

  • Classifying Sport Consumers: From Casual to Tribal Fans (Hedlund, Biscaia, Leal)
  • Conceptualization and Measurement of Fan Engagement: Empirical Evidence From a Professional Sport Context ( Yoshida, Gordon, Nakazawa, Biscaia)


Comentários