Não há dúvida que o futebol se popularizou devido às classes mais pobres terem sido fundamentais para este processo, chegando a ser nomeado como o "ópio do povo" durante a ditatura militar brasileira. Portanto, se as classes mais pobres foram muito importantes para o futebol se transformar neste grande fenômeno sócio cultural brasileiro, porque no atual momento estão tão alijados de frequentar os jogos dos seus clubes?
É claro que o principal motivo é a precificação dos ingressos e isso faz parte da estratégia dos planos de sócio torcedor. Quando a prioridade é focar no crescimento da base de sócios torcedores o preço dos ingressos avulsos acaba dificultando ainda mais o acesso das camadas mais pobres mas, quando não há essa estratégia, é possível uma precificação mais acessível, como o São Paulo tem conseguido e é reconhecido pelos seus torcedores no documentário.
Ao contrário do tricolor paulista, Corinthians e Palmeiras adotaram a estratégia de priorizar o crescimento da base de sócios torcedores e acaba afastando as camadas mais pobres das suas respectivas arenas como mencionado pelos torcedores dos dois clubes no documentário.
Os torcedores do Palmeiras até questionam porque não ter preços mais baixos para jogos de menos demanda para atrair esses torcedores e até mencionam como foi diferente o perfil do público no jogo Palmeiras e Santos no Morumbi no Paulistão de 2023, onde mais de 49 mil palmeirenses estiveram presente e foi o ticket médio mais baixo do Verdão na competição.
O perfil do torcedor mudou, tanto que em Itaquera, região pobre da zona leste de São Paulo e que tem grande maioria de corintianos, cerca de 50% dos torcedores que vão aos jogos do Timão são de outros bairros da cidade.
Não é nada incomum o torcedor raiz se incomodar com comportamentos "inaceitáveis" de perfis menos fanáticos quando fazem selfies durante o jogo, não empurrarem o time quando o jogo está difícil, reclamam com quem está assistindo ao jogo em pé, dão tchauzinho pra câmera com o time perdendo o jogo da final em casa contra o maior rival, entre outros.
O que se questiona no documentário não é a presença de torcedor "nutella" mas a falta de uma presença mais representativa de todas as classes sociais nas arenas, algo que era mais fiel até o início dos anos 2000 e que se acelerou após a Copa de 2014.
Que estratégias os clubes poderiam adotar para aumentar a presença deste perfil de torcedores nas arenas visando aumentar a taxa de ocupação em jogos menos atrativos, deixar o ambiente mais quente para empurrar time em jogos mais difíceis, cantar e empurrar o clube em todos os jogos, trazer a família toda para aumentar o envolvimento e a paixão pelo clube entre outros?
Como frequentador de estádios desde os anos 80 pude observar passo a passo essa transformação e a experiência. Não há dúvida que em termos de conforto, acesso e experiência de assistir aos jogos houve um imenso salto de qualidade mas, por outro lado, grande parte de torcedores fanáticos estão alijados desta experiência pelas questões expostas e que, com certeza, fariam a diferença caso pudessem ter a oportunidade regular de irem aos jogos.
O futebol atual é um grande negócio e isso não há dúvida, mas no Brasil o futebol transcende o jogo e é uma expressão cultural do povo brasileiro, mas grande parte da população só pode torcer pela TV e muitas vezes poderiam estar dentro das arenas fazendo daquele ambiente algo muito maior do que apenas um jogo, mas sim uma declaração de amor e paixão pelo seu clube e, como dito por um dos participantes do documentário, se sentir acolhido e com pertencimento dentro de um estádio.
Quem viveu esta experiência até os anos 90 sabe do que estou falando mas, principalmente, sabe do que sentimos quando íamos aos jogos. Este sentimento faz falta nos dias atuais.
O desafio posto aos clubes brasileiros é qual modelo seguir, o alemão onde trabalham com preço de ingresso mais populares em troca de manter a mesma atmosfera e experiência dos anos 90 mas também atraindo faixas sócio econômicas mais elevadas ou o modelo inglês, onde a atmosfera das arenas é similar ao público de teatro, com ingressos mais caros mas sem a atmosfera de antigamente?
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