O público mais jovem realmente não assiste esporte? O que os dados dizem?



Matéria interessante da Sports Pro Daly sobre um tema recorrente no segmento esportivo, que é a possibilidade de queda de atratividade nas gerações mais jovens. Fiz um resumo do artigo para colaborar com o debate no Brasil:

Existe uma opinião generalizada de que as gerações mais jovens não estão tão interessadas em esporte e, como resultado, o futuro da indústria estaria ameaçado. À medida que o mundo do entretenimento se torna cada vez mais repleto de opções para chamar a atenção das pessoas, esta noção tornou-se mais arraigada, mas será mesmo verdade? O público jovem realmente não consome mais esporte?

Globalmente a maioria dos esportes monitorados pela Ampere Sport Media Rights estão abaixo do índice de atratividade  entre os grupos demográficos mais jovens. Na verdade, os únicos esportes que apresentam índice acima da média são o basquete, o MMA e a luta livre. Já em países da Europa Ocidental, além dos três esportes mencionados acima, o futebol, o basebol e o voleibol também têm um bom desempenho, especialmente em França, Itália e Espanha. 

No geral nos EUA o público que assiste a esportes tende a ser mais velho e tem mais dificuldade em envolver o grupo demográfico dos 18 aos 24 anos, mas está ocorrendo um aumento de envolvimento dos jovens com competições esportivas femininas como a WNBA, além da Fórmula 1 e sa Nascar.

O que foi possível observar na pesquisa é que os esportes que estão adotando estratégias que priorizam o digital e colaborações em setores verticais como a música, a moda e a cultura de influenciadores são os que estão se beneficiando de um maior envolvimento com o público jovem.

Assistir aos jogos ao vivo é de longe o ponto de contato mais importante para os jovens, no entanto, é menos provável que passem muito tempo assistindo ao vivo do que a média. Por outro lado o maior tempo gasto pelos jovens está no conteúdo produzidos pelos atletas nas redes sociais, melhores momentos, Fantasy Games e podcasts.

Isto mostra que, para os detentores de direitos, o ao vivo ainda é um veículo importante para envolver o público jovem, mas é necessário garantir que desenvolvam conteúdos em torno do evento principal a fim de alcançar os fãs fora do ambiente ao vivo.

Os dados da Ampere mostraram um aumento na quantidade de tempo que o público jovem passa assistindo aos melhores momentos. Cerca de 10% dos jovens apenas assistem aos melhores momentos. Este comportamento demonstra que os melhores momentos se tornarão um meio cada vez mais importante para alcançar a população mais jovem.

Os jovens gastam 65% a mais do seu tempo assistindo aos melhores momentos do que a média e 50% a mais do seu tempo assistindo a conteúdos produzidos pelos atletas nas redes sociais do que a média.

No entanto, o envolvimento abaixo da média com o esporte ao vivo não significa que o público jovem não goste de esporte. Entre o terceiro trimestre de 2016 e o ​​terceiro trimestre de 2024 a proporção de jovens entre os 18 e os 24 anos que afirmam gostar de assistir esporte aumentou 23% . Onde se registou um crescimento mais significativo foi entre as jovens mulheres onde houve um aumentou 45% contra 11% dos homens no mesmo período.

Um dos principais fatores que que impulsionaram o engajamento é a digitalização. Os dados da Ampere mostram que, em 2024, 16% do esporte ao vivo estava nas plataformas OTT, isto corresponde ao crescimento de quase 50% desde 2017. A maior disponibilidade em plataformas mais utilizadas pelo público jovem proporciona mais oportunidades de envolvimento.

Outro fator importante é o aumento da popularidade do conteúdo esportivo adjacente como os documentários disponíveis nas plataformas de streaming mais populares entre o público mais jovem, como Amazon, Disney+ e Netflix. Esses documentários ajudam a contar as histórias humanas por trás dos esportes e são particularmente atraentes para o público mais jovem. A pesquisa de Ampere mostra que aqueles que assistem a documentários esportivos algumas vezes por mês têm 15% mais probabilidades de engajamento do que a média nessa faixa etária.

O melhor exemplo disso é o documentário Drive to Survive, da Fórmula 1. Os dados de Ampere sugerem que o documentário ajudou a atrair o público mais jovem. A proporção de fãs de Fórmula 1 com idades entre 18 e 24 anos cresceu 67% entre o terceiro trimestre de 2017 e o terceiro trimestre de 2024.

Maior oferta de melhores momentos, transmissões via streaming e documentários são importantes mas não é o suficiente. Também é fundamental falar com esse público através de vários pontos de paixão como a produção de conteúdos através da música, de celebridades e da moda, porque as modalidades/ligas que entenderem este novo comportamento dos jovens são mais propensos a capturar o fandom se puderem apelar para múltiplos interesses, em vez de tentarem apenas promover o esporte em si.

Os dados da pesquisa mostram que as transmissões ao vivo não precisam necessariamente ser reinventadas, mas os detentores de direitos e as emissoras não podem continuar a contar apenas com as transmissões ao vivo para atrair jovens fãs, mas é preciso investir em uma oferta holística de conteúdo, caso contrário, existe a possibilidade de quem não investir ficar para trás.

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