O produto Copa Libertadores da América é positivo com o atual cenário?



Pela sétima vez nos últimos oito anos teremos um clube brasileiro como campeão da Copa Libertadores da América sendo que, das últimas cinco edições, serão quatro finais apenas com dois clubes brasileiros. Além desse período recente tivemos mais duas finais brasileiras nas edições de 2005 e 2006. Apenas em 2018 houve uma final entre dois clubes argentinos. 

Podemos dividir o histórico da Libertadores em quatro diferentes períodos:

  • 1960 - 1988

Número de clubes: 20 ( 2 clubes de cada país)

Fase de Grupos: 5 grupos de quatro clubes (2 de cada país), jogos de ida e volta com classificação apenas do primeiro colocado

Fase final: 2 grupos de três clubes (5 primeiros colocados mais o campeão da Libertadores do ano anterior), jogos de ida e volta com classificação apenas do primeiro colocado

Final: 2 jogos de ida e volta sem diferença de saldo de gols. Em caso de dois resultados iguais era necessário a realização de um terceiro jogo em país neutro

Títulos brasileiros: 05

Características gerais:

- Competição disputada no primeiro semestre

- Sem transmissão de TV de todos jogos

- Arbitragem pressionada

- Sem controle de doping

- Ambiente extremamente hostil tanto fora como dentro de campo

OBS: A edição de 1988 foi uma transição para uma nova fórmula. Nesta edição os dois primeiros clubes se classificaram para a próxima fase. Os 10 clubes classificados jogaram um mata mata. Os 5 classificados mais o o campeão da Libertadores do ano anterior jogaram um novo mata e os 3 classificados mais o melhor perdedor jogaram as semifinais.


  • 1989 - 1999

Número de clubes: 20 ( 2 clubes de cada país)

Fase de Grupos: 5 grupos de quatro clubes (2 de cada país), jogos de ida e volta com classificação dos 3 primeiros colocados

Fase final: Mata mata com 16 clubes (15 primeiros colocados mais o campeão da Libertadores do ano anterior), jogos de ida e volta com oitavas, quartas e semifinal

Final: 2 jogos de ida e volta

Títulos brasileiros: 6

Características gerais:

- Competição disputada no primeiro semestre

- Entrada de dois clubes mexicanos em 1998, que disputaram uma fase preliminar com os clubes venezuelanos

- Transmissão de TV de todos os jogos

- Maior controle de doping 

- Arbitragem menos pressionada

- Ambiente menos hostil dentro como fora de campo


  • 2000 - 2016

Número de clubes: 32 ( 4 argentinos e brasileiros, 3 clubes dos demais países, com exceção da Venezuela e México)

OBS: A partir de 2004 brasileiros e argentinos tiveram aumento de mais um clube, totalizando cinco clubes na competição.

Fase de Grupos: 8 grupos de quatro clubes, jogos de ida e volta com classificação dos 2 primeiros colocados

Fase final: Mata mata com 16 clubes, jogos de ida e volta com oitavas, quartas e semifinal

Final: 2 jogos de ida e volta

Títulos brasileiros: 6

Características gerais:

- Competição disputada no primeiro semestre

- Transmissão de TV de todos os jogos

- Maior controle de doping 

- Arbitragem menos pressionada

- Ambiente menos hostil dentro como fora de campo


  • 2017 - 2024

Número de clubes: 47 ( 7 brasileiros, 6 argentinos,  4 clubes dos demais países)

Fase preliminar: 3 fases em jogos de mata mata com 4 clubes se classificando para a fase de grupos

Fase de Grupos: 8 grupos de quatro clubes, jogos de ida e volta com classificação dos 2 primeiros colocados

Fase final: Mata mata com 16 clubes, jogos de ida e volta com oitavas, quartas e semifinal

Final:  A partir de 2019 se iniciou o modelo de jogo único em país previamente definido

Títulos brasileiros: 7

Características gerais:

- Saída dos clubes mexicanos da competição

- Competição disputada durante toda a temporada

- Significante aumento no valor da premiação 

- Implementação do VAR a partir de 2018

- Finais disputadas apenas por clubes brasileiros e argentinos


Análise dos dados

  • Entre 1960 e 1988, com apenas 1 clube se classificando por grupo, sem transmissão de TV de todos jogos, arbitragem pressionada, sem controle de doping e ambiente extremamente hostil tanto fora como dentro de campo o protagonismo dos clubes brasileiros foi muito baixo, com apenas 5 títulos e 6 vice-campeonatos (38% de protagonismo);

  • A partir de 1989, com o aumento para 3 clubes classificados na fase de grupos, mudança da fórmula de disputa para mata mata nas fases finais, transmissão de TV de todos os jogos, maior controle de doping, arbitragem menos pressionada e ambiente menos hostil dentro como fora de campo houve um forte aumento do protagonismo e de conquistas de clubes brasileiros com 6 títulos (60% de protagonismo);

  • Entre 2000 e 2016 os clubes brasileiros estiveram presente em 12 das 17 finais, sendo que as edições de 2005 e 2006 foram disputadas por dois brasileiros, consolidando o protagonismo dos clubes brasileiros na competição (70% de protagonismo);
  • A partir de 2017, com a participação garantida de sete clubes brasileiros, aumento significativo da premiação o Brasil venceu 7 das 8 edições, com 4 finais brasileiras. Mais do que protagonismo, a Libertadores da América se transformou em uma dinastia dos clubes brasileiros com protagonismo de 87%.

Conclusões

Segundo dados do site Máquina do Esporte, em 2024 os diretos de transmissão do Brasileirão e da Copa do Brasil geraram em torno de US$ 470 milhões, a AFA (Associação de Futebol Argentino) teve uma receita de US$ 215 milhões. Em comparação com a Federação Equatoriano, a receita é 15 vezes menor, e do Paraguai 26 vezes menor.

As premiações para os campeões da Libertadores também estão fazendo com que o faturamento dos clubes brasileiros se descole ainda mais. Entre 2013 e 2017 os valores variaram entre US$ 2 milhões e US$ 3 milhões para o campeão. Em 2018 começou a ter um maior salto, com premiação de US$ 6 milhões, em 2019 a premiação dobrou e entre 2020 e 2022 variou entre US$ 15 milhões e US$ 16 milhões. O campeão de 2023 ganhou US$ 18 milhões e em 2024 teve um novo salto para US$ 23 milhões. Além desses valores, os campões recebem cotas para disputar o Mundial da Fifa.

A entrada do modelo SAF no Brasil fez com que clubes recebessem grandes valores de investimento tanto que Botafogo e Atlético Mineiro disputarão a final da Libertadores e o Cruzeiro disputará a final da Copa Sul-Americana. 

Esse cenário fez com que a folha salarial de Fluminense, São Paulo, Palmeiras, Grêmio, Botafogo, Flamengo e Atlético Mineiro chegasse a 53% maior do que todos os clubes da primeira divisão argentina (US$ 34 milhões x US$ 16 milhões). Esses números demonstram um dos motivos do aumento de 139% de jogadores argentinos jogando no futebol brasileiro desde 2020.

Premiações, patrocínios, contratos de diretos de TV atraem mais jogadores que acabam aumentando a qualidade das equipes e, consequentemente dos campeonatos e das partidas, com clubes obtendo maiores receitas com bilheteria e sócio torcedor, tanto que o Brasileirão atualmente é o oitavo campeonato nacional mais valioso do mundo.

A questão que deve ser levantada é se, para o produto Copa Libertadores da América, o atual cenário de uma dinastia dos clubes brasileiro é positivo em termos esportivos e também comerciais ou seria o momento de rever alguns pontos como a redução do número de clubes de cada país ou fazer sorteio sem restrição a partir das quartas de final como na Champions League para tornar a competição mais viável para que haja um aumento de possibilidade de clubes de outros países disputarem e conquistarem a competição, reduzindo a atual dominância dos brasileiros.




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