O protagonismo do futebol brasileiro em nível mundial




Protagonismo é o processo de protagonizar, de ser o protagonista, a figura principal de uma apresentação. O termo é muito usado no teatro, no cinema, na novela etc. para se referir ao personagem principal da encenação. No sentido figurado protagonista é a pessoa que desempenha ou ocupa o papel principal numa obra literária ou num acontecimento. 

Desde a primeira conquista da Copa do Mundo a seleção brasileira nunca deixou de ter um papel de protagonista no imaginário do futebol mundial. Logo após a eliminação da seleção brasileira na Copa de 2022, o colunista Tostão, um pensador do futebol, escreveu: “apesar das últimas eliminações, o Brasil ainda é um dos símbolos do futebol, antes que os aventureiros e incompetentes destruam esse fascínio.”

 É possível considerar que protagonismo faz parte deste símbolo que o futebol brasileiro representa. Como elementos do protagonismo considerei os quesitos abaixo:

 · Participação relevante (títulos, finais, semifinais) em torneios internacionais de seleções e de clubes (mundial e continental);

·  Presença de jogadores nas premiações internacionais: FIFA (The Best, Top 3, seleção da temporada), Bola de Ouro da revista “France Football”, prêmio Rei da América do jornal uruguaio “El País”;

·  Presença de jogadores nos principais clubes das principais ligas do mundo;

· Campeonato nacional que que consiga atrair a atenção e o interesse de torcedores e patrocinadores nacionais e internacionais.

Provavelmente possam ser inseridos outros itens na relação acima, mas, com certeza, os itens propostos devem constar em qualquer relação que fazem parte dos significados de protagonismo.

Com base nesses itens, vamos avaliar se o futebol brasileiro já foi e se ainda é protagonista:

Participação relevante (títulos, finais, semifinais) em torneios internacionais de seleções (mundial e continental) 

·         Títulos (5): 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002;

·         Vice-campeonato (2): 1950 e 1998;

·         Terceiro ou quarto colocado (3):1938, 1974, 1978 e 2014.

Com base nesses dados é possível concluir que, em nível de Copa do Mundo, a seleção brasileira teve mais protagonismo entre as Copas de 1950 e 1978 e posteriormente entre 1994 e 2002, dois períodos bem definidos. Esse histórico de protagonismo no passado é responsável para manter o Brasil como um dos símbolos do futebol até a atualidade.

Referente ao protagonismo continental nos torneios de seleção, o histórico é o seguinte:

 Títulos (9): 1919, 1922, 1949, 1989, 1997, 1999, 2004, 2007 e 2019;

 Vice-campeonato (12): 1921, 1925, 1937, 1945, 1946, 1953, 1957, 1959-I, 1983, 1991, 1995 e 2021;

 Terceiro ou quarto colocado (10): 1916, 1917, 1920, 1923, 1942, 1956, 1959-II, 1963, 1975 e 1979.

Apesar do Brasil ser um dos países mais fortes do seu continente, também é possível perceber que o protagonismo está demarcado nos mesmos dois ciclos das conquistas mundiais, o primeiro entre 1945 e 1979, período que engloba as gerações que disputaram as Copas de 1950 a 1978 e o segundo ciclo, entre 1989 e 2007, período que engloba o segundo ciclo de conquistas das Copas, de 1994 a 2002.

Obs: Não houve disputa de torneios continentais entre 1968 e 1974.

Participação relevante (títulos, finais, semifinais) em torneios internacionais de clubes (mundial e continental

Considerando todas os formatos reconhecidos pela FIFA desde 1960, a relação dos títulos mundiais é a seguinte:

Títulos (10): 1962, 1963, 1981, 1983, 1992, 1993, 2000, 2005, 2006 e 2012.

 Vice-campeonato (10): 1976, 1995, 1997,1998, 1999, 2000, 2011, 2017, 2019, 2021, 2023.

Similar ao encontrado com o protagonismo da seleção, o protagonismo dos clubes brasileiros se concentra no período entre 1992 e 2006, período que engloba as conquistas das Copas de 1994 e 2002. É possível perceber uma maior participação dos clubes brasileiros a partir de 2010, mas apenas com uma única conquista há 12 anos.

Referente ao protagonismo na Copa Libertadores da América, principal torneio de clubes do continente, o histórico é o seguinte:

Títulos (23): 1962, 1963, 1976, 1981, 1983, 1992, 1993, 1995, 1997,1998, 1999, 2005, 2006, 2010, 2011, 2012, 2013, 2017, 2019, 2020, 2021, 2022 e 2023;

Vice-campeonato (18): 1961, 1968, 1974, 1977, 1980, 1984, 1994, 2000, 2002, 2003, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009, 2020, 2021 e 2022.

A partir da década de 1990, quando houve a mudança do regulamento da competição e o aumento de participantes por país, é possível perceber que os clubes brasileiros estão presentes em praticamente quase todas as decisões, conquistando as cinco últimas edições, sendo que as edições de 20,21 e 22 foram decididas por dois clubes brasileiros e fica notório que, em nível continental, os clubes brasileiros tem sido protagonistas desde os anos 90 até a atualidade.

Presença de jogadores nas premiações internacionais: FIFA (The Best, Top 3, seleção da temporada), Bola de Ouro da revista “France Football”, prêmio Rei da América do jornal uruguaio “El País”

Pela premiação do melhor jogador da temporada da Fifa, o prêmio “The Best”, os brasileiros premiados foram os seguintes:

Ganhadores: Romário (1994), Ronaldo (1996, 1997 e 2002), Rivaldo (1999), Ronaldinho Gaúcho (2004 e 2005) e Kaká (2007);

 Indicados (Top 3): Romário (1993), Roberto Carlos (1997), Ronaldo (1998), Rivaldo (2000 e 2003), Ronaldinho Gaúcho (2006) e Neymar (2017);

  Seleção anual FIFA: 

·         2005: Dida, Cafu, Ronaldinho Gaúcho;

·         2006: Kaká, Ronaldinho Gaúcho;

·         2007: Kaká, Ronaldinho Gaúcho;

·         2008: Kaká;

·         2009: Daniel Alves;

·         2010: Maicon, Lúcio;

·         2011: Daniel Alves;

·         2012: Daniel Alves, Marcelo;

·         2013: Daniel Alves, Thiago Silva;

·         2014: David Luiz, Thiago Silva;

·         2015: Daniel Alves, Thiago, Marcelo, Neymar;

·         2016: Daniel Alves, Marcelo;

·         2017: Daniel Alves, Marcelo, Neymar;

·         2018: Daniel Alves, Marcelo;

·         2019: Alisson, Marcelo;

·         2020: Alisson;

·         2021: Nenhum;

·         2022: Casemiro;

·         2023: Vinícius Júnior.

Como na análise do período de conquistas da seleção brasileira, os jogadores premiados estão concentrados entre 1993 e 2007, período que engloba as conquistas de 1994 e 2002 e, com exceção de Kaká, os jogadores premiados foram protagonistas nas conquistas das duas Copas.

Referente ao prêmio The Best da FIFA, até 2008 os meias brasileiros Kaká e Ronaldinho Gaúcho fizeram parte das seleções. De 2009 até 2023 praticamente apenas defensores brasileiros fizeram parte da seleção. As exceções foram Neymar em 2015 e 2017 e Vinícius Júnior em 2023. Em 2021 nenhum jogador brasileiro foi o premiado pela FIFA como o melhor em sua posição.

Vamos agora avaliar a premiação do melhor jogador da temporada pela revista France Football:

Até 1994 apenas os jogadores europeus podiam ser premiados. Visando reconhecer grandes jogadores de outras gerações a revista instituiu em 2015 o prêmio honorário. Foram premiados craques como Pelé, Garrincha, Maradona, Kempes e Romário.

Com a concentração dos principais jogadores do mundo nos clubes europeus, a partir da década de 1990 começaram as ser premiados jogadores de outros continentes e a relação de brasileiros premiados foram os seguintes:

 1997: Ronaldo

·         1999: Rivaldo

·         2002: Ronaldo

·         2005: Ronaldinho Gaúcho

·         2007: Kaká

Como no prêmio The Best da FIFA, os premiados foram os mesmos jogadores no mesmo período do ciclo das conquistas das Copas (1994 a 2002) estendido até 2007, com jogadores que fizeram parte do elenco da Copa de 2002 e 2006.

Para concluir a este item, vamos avaliar a premiação do “Rei da América”,  efetuada pelo jornal uruguaio El País desde 1986, sendo o mais importante da América do Sul. Trata-se de uma continuação do prêmio dado anteriormente por outro jornal sul-americano, o El Mundo da Venezuela, iniciada em 1971.  Vamos aos dados:

 1971: Tostão

·         1973: Pelé

·         1977: Zico

·         1981: Zico

·         1982: Zico

·         1983: Sócrates

·         1989: Bebeto

·         1992: Raí

·         1994: Cafu

·         2000: Romário

·         2011: Neymar

·         2012: Neymar

·         2013: Ronaldinho Gaúcho

·         2017: Luan

·         2019: Gabigol

·         2020: Marinho

·         2022: Pedro

 Até 2013 todos os premiados foram jogadores com destaque tanto em seus clubes como na seleção brasileira. A partir de 2017 nenhum dos jogadores premiados fizeram parte dos convocados para as Copas do Mundo.

 Presença de jogadores nos principais clubes das principais ligas do mundo

Desde o ano 2000, todas as finais da Champions League têm jogadores brasileiros em campo. A edição 22/23 da Champions League teve a participação de 51 jogadores brasileiros espalhados em 20 dos 32 clubes. Na final de 21/22 entre Real Madrid e Liverpool, foram 5 brasileiros, o país com mais jogadores escalados como titulares e desde 1999. Não há uma final do maior torneio de clubes do mundo sem um brasileiro como titular.

Neste quesito o Brasil pode ser considerado com protagonismo mundial e esses dados serão mais aprofundados neste livro.

Campeonato nacional que que consiga atrair a atenção e o interesse de torcedores e patrocinadores nacionais e internacionais.

Com certeza este quesito é o que mais o futebol brasileiro deixa a desejar. As transmissões internacionais em maior escala começaram a ser efetuadas há poucos anos e hoje o campeonato brasileiro é transmitido para cerca de 150 países em todos os continentes.

Nenhum país que queira ter o produto futebol fortalecido terá êxito caso o campeonato não seja forte, atrativo e com receitas relevantes. Atualmente o Brasileirão é o sexto campeonato mais valioso do mundo, mas, pelo potencial de consumo do mercado nacional, tem potencial para chegar perto do top 3 e, caso bem trabalhado, alcançar o pódium. Este tema também será mais aprofundado neste livro em um capítulo específico.


Pelos dados apresentados para medir o protagonismo do futebol brasileiro no cenário mundial, fica claro que houve um período coincidente entre grandes jogadores somados à conquistas da seleção e dos clubes que estão concentradas em dois períodos bem específicos: entre 1950 e 1978 e, posteriormente o mesmo fenômeno se repetiu entre 1989 e 2007.

Entre 1950 e 1978 o Brasil teve seu período de maior protagonismo em Copas, com três conquistas, um vice-campeonato e duas classificações entre os quatro melhores. Apenas em 1954 e 1966 a seleção não se destacou nas Copas.

Entre 1982 e 1990 o Brasil nunca passou das quartas de final, fato que se repete de 2006 até 2022, com exceção de 2014, onde ficou entre as quatro melhores seleções, mas passou pela maior derrota da história.

Desde 2002 a seleção brasileira participou apenas de uma semifinal, demonstrando que deixou de ser protagonista, apesar do Brasil ser um dos símbolos do futebol, como bem escreveu Tostão.

Em nível continental, entre 1989 e 2007 a seleção brasileira dominou e foi protagonista e só voltou a disputar os jogos decisivos em doze anos depois.

Após a geração que ficou entre as quatro melhores seleções da Copa do Mundo em 1974 e 1978, o país teve uma geração muito talentosa nos anos 80, mas teve uma entressafra de títulos e protagonismo que durou 10 anos.

O cenário atual não é o mesmo do que ocorreu nos anos 80 que teve uma geração talentosíssima, mas, devido a um mercado pouco globalizado, os jogadores daquela geração não tinham o alcance global.  

Neymar disputou o prêmio The Best em 2017, mesmo ano que também fez parte da seleção dos melhores da FIFA. Entre 2018 e 2022 ele tinha sido o último atacante a fazer parte da seleção. Em 2023 Vinícius Júnior entrou na seleção.

 Em nível mundial os clubes brasileiros não conquistam o título desde 2012, já em nível continental há um domínio quase que total dos clubes brasileiros na última década, mas este domínio não se reflete em novos talentos para a seleção, nem em premiações individuais até o momento.

Com base nesses dados a questão que cada vez mais cria uma inquietude para quem é um estudioso do futebol brasileiro é quais são os desafios para o futebol brasileiro voltar ao protagonismo mundial.

 

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