Na última quarta feira a presidente do Palmeiras deu uma entrevista visando dar satisfação pelas críticas que tem recebido durante esta temporada. Suas declarações causaram bastante repercussão tanto entre os palmeirenses como na mídia em geral.
Durante a entrevista uma das declarações que mais causou incômodo aos palmeirenses foi quando a presidente disse que, caso o modelo de gestão atual não for seguida pelos próximos presidentes, o clube correria o risco de voltar ao período anterior a 2015, quando comemorava o não rebaixamento e com risco de voltar a cair para a série B no futuro.
Visando verificar com dados esta declaração resolvi fazer uma análise do faturamento dos últimos 10 anos do Palmeiras. Neste período o clube teve três presidentes:
Paulo Nobre: 2013 a 2016
Maurício Galiotte: 2017 a 2021
Leila Pereira: 2022
Obs 1: os dados foram coletados nas publicações do Itaú BBA e do relatório Convocados.
Obs 2: os valores não foram corrigidos pela inflação, mas sim analisados pela evolução anual.
Vamos aos dados:
O gráfico abaixo demonstra a evolução do faturamento anual total dos últimos 10 anos (cotas de TV, patrocínio, bilheteria, sócio torcedor, venda de atletas e outras receitas):
No gráfico é possível observar um crescimento constante até 2018 seguido de estabilidade em 2019. Por causa da pandemia houve grandes distorções nos faturamentos de 2020 e 2021, com grande queda em várias receitas. Devido a temporada 2020 ter se encerrado em 2021, o faturamento de 2021 está inflado com receitas que em tese deveriam ser referentes ao ano anterior. Em 2022 houve uma volta à normalidade das receitas.
2013 a 2014: Primeiro mandato de Paulo Nobre
O clube passava por um momento muito difícil, rebaixado para a série B, com várias receitas antecipadas e sem estádio devido à construção do Allianz Parque. Podemos considerar este período como de reconstrução e reestruturação em todas as áreas de negócio.
2015 a 2016: Segundo mandato de Paulo Nobre
A realidade começou a se transformar positivamente, principalmente nas seguintes linhas de receita:
2015: Salto de 81 para 88 milhões anuais
2016: Salto de 88 para 128 milhões anuais
- Bilheteria + Sócio Torcedor
2015: Salto de 23 para 77 milhões anuais
2016: Salto de 77 para 104 milhões anuais
Este salto nesta linha de receita foi devido a inauguração do Allianz Parque e forte promoção do plano de sócio torcedor.
Esta linha de receita é a soma de todas as propriedades que o clube comercializa com parceiros comerciais como fornecedor de material esportivo, patrocinadores da camisa e de outras propriedades como backdrop, digital, placas ao redor do gramado entre outros.
2015: Salto de 23 para 70 milhões anuais
2016: Salto de 77 para 97 milhões anuais
Este salto nesta linha de receita foi devido principalmente ao patrocínio com a Crefisa.
Tanto em 2015 como em 2016 as receitas com bilheteria e sócio torcedor foram a segunda maior receita, apenas atrás das cotas de TV, seguido pela receita com patrocínio.
Podemos considerar que no segundo mandato do presidente Paulo Nobre o clube começou a colher os primeiros frutos do trabalho de reconstrução iniciado em 2013 com o clube voltando a ganhar protagonismo esportivo, voltando a ganhar uma Copa do Brasil e o Campeonato Brasileiro.
2017 a 2018: Primeiro mandato de Maurício Galiotte
Podemos considerar que foi um período de consolidação do clube como protagonista esportivo e em faturamento total no Brasil. Apesar deste protagonismo, o clube conquistou apenas o título de Campeão Brasileiro em 2018.
Novamente as receitas com patrocínio, bilheteria e sócio torcedor foram as que mais impactaram no crescimento:
- Bilheteria + Sócio Torcedor
2017: Salto de 104 para 121 milhões anuais
2018: Salto de 121 para 160 milhões anuais
O protagonismo esportivo e a campanha do sócio torcedor, onde as receitas eram totalmente revertidas para contratação de jogadores, foram responsáveis por mais dois anos de forte crescimento.
2017: Salto de 97 para 137 milhões anuais
2018: Queda de 137 para 100 milhões anuais
Em 2017 o Palmeiras assinou contrato com novo fornecedor de material esportivo, que acabou sendo um dos principais responsáveis pelo crescimento da receita. Em 2018, pela primeira vez, houve queda na receita com patrocínio.
Em 2018 a venda de atletas (170 milhões) foi a segunda maior fonte de receita.
2019 a 2021: Segundo mandato de Maurício Galiotte
Apesar do Palmeiras não ter conquistado nenhum título em 2019, os anos de 2020 e 2021 podem ser considerados dois anos mágicos em termos de conquistas e faturamento e que já entraram para a história do clube.
A partir de 2019 as receitas com bilheteria começaram cair, voltando ao patamar de 2013 e 2014 durante a pandemia, cresceu novamente em 2022 mas nunca mais voltou aos patamares 2017 e 2018. Por outro lado, as cotas de TV, agora somadas com as premiações das Copas e, principalmente, a venda de atletas ganharam grande relevância no faturamento.
2019: Salto de 137 para 214 milhões anuais
2020: Queda de 214 para 181 milhões anuais
2021: Salto de 181 para 501 milhões anuais
Com as premiações sendo atreladas as cotas de TV, as conquistas das duas Copas Libertadores e da Copa do Brasil em 2021 elevaram o Palmeiras a seu maior faturamento da história, muito próximo de R$ 1 bilhão.
2019: Queda de 170 para 104 milhões anuais
2020: Salto de 104 para 149 milhões anuais
2021: Queda de 149 para 139 milhões anuais
2019: Salto de 100 para 135 milhões anuais
2020: Queda de 135 para 129 milhões anuais
2021: Salto de 129 para 190 milhões anuais
Conforme mencionado anteriormente, como a temporada 2020 se encerrou em 2021 muitas receitas se acumularam em 2021, o que acabou distorcendo os valores. Além disso, alguns patrocinadores pagam prêmios por títulos, o que acabou impactando positivamente as receitas.
2022: Primeiro ano do mandato de Leila Pereira
Já com a normalidade estabelecida após o pior momento da pandemia, as receitas com bilheteria e sócio torcedor voltaram a subir (103 milhões), mas foi apenas a quarta maior receita, atrás das cotas de TV (261 milhões), venda de atletas (174 milhões) e patrocínio (158 milhões).
Ao somar os 10 anos de faturamento, as receitas se dividem da seguinte forma:
- Cotas de TV / premiações: 35%
- Patrocínio: 21%
- Venda de atletas: 16%
- Sócio Torcedor / Bilheteria: 15%
- Outros: 13%
Portanto, quando a atual presidente declara em entrevista a importância do patrocínio de suas empresas para o Palmeiras estar no patamar atual desde 2015, não há como negar que houve impacto, mas as outras receitas também possuem relevância para que o clube se mantenha no protagonismo esportivo e econômico atual.
Palmeiras x Flamengo
Uma outra análise que considero relevante é comparar o faturamento do Palmeiras com o Flamengo, que iniciaram juntos em 2013 um processo de reconstrução e reestruturação que levaram os dois clubes a um patamar de protagonismo esportivo e econômico bem acima de outros grandes clubes do Brasil nos últimos anos. A evolução do faturamento nos últimos 10 anos é o seguinte:
A partir de 2015 os dois clubes praticamente disputaram ano a ano a liderança em termos de faturamento mas, a partir de 2019, o Flamengo abriu vantagem, com apenas uma aproximação do Palmeiras em 2020.
No primeiro ano da gestão Leila Pereira, além do Flamengo ter conseguido premiações relevantes nas conquistas das Copas e o Palmeiras ter vencido o Campeonato Brasileiro, o Flamengo seguiu com curva ascendente de receitas enquanto o Palmeiras teve uma queda, o que amentou a diferença entre as duas equipes, com um faturamento total 48% superior (1,17 bi x 0,79 bi).
Gostaria de ressaltar que a questão não é tanto a diferença, pois os clubes tem grandezas diferentes em termos de tamanho de torcida, mas sim a queda de receita do Palmeiras, principalmente por não ter conquistado premiações elevadas nas Copas.
Como o resultado esportivo não é possível controlar, qual foi a diferença na eficiência da gestão dos dois clubes nas outras receitas?
A curva que mais se assimila com as receitas totais são as receitas com patrocínio, conforme abaixo:
A partir de 2020 o Flamengo subiu de patamar com patrocínios e em 2022 a diferença de receitas com patrocínios é de 99 milhões. O Flamengo consegue ser muito mais eficaz que o Palmeiras, faturando 63% a mais com esta linha de receita.
Para se ter uma ideia do número de parceiros comerciais atuais, convido o leitor a entrar no site oficial do
Flamengo e do
Palmeiras para notarem a diferença de marcas presentes nos dois sites bem como são expostas.
Entre 2016 e 2020 o Palmeiras foi mais eficaz e a cada ano está perdendo eficácia, principalmente no primeiro ano da gestão de Leila Pereira, atual patrocinadora do clube que preside.
Conforme mencionado anteriormente, o Palmeiras nunca mais voltou a faturar nos níveis de 2017 e 2018 com sócio torcedor e bilheteria, conforme podemos verificar abaixo.
Entre 2015 e 2018 o Palmeiras tinha vantagem sobre o Flamengo. A partir de 2019 o Flamengo inverteu a curva. Atualmente o rubro negro fatura 96 milhões acima do Palmeiras, praticamente o dobro, demonstrando que também neste quesito a atual gestão do Palmeiras não está sendo eficiente.
Com base nos dados acima, caso as futuras gestões do Palmeiras não seguirem o que está sendo efetuado pela atual presidente, realmente vão ao encontro das suas declarações ou a atual gestão está levando o clube a um retrocesso em nível de faturamento e possível perda protagonismo?
Provavelmente em 2023 os números devem ampliar ainda mais a diferença entre os dois gigantes além de outros clubes possivelmente se aproximarem do Palmeiras em termos de faturamento e protagonismo esportivo.
Concluo este longo post com uma indagação:
Existe um novo Palmeiras especificamente devido a entrada da Crefisa e de Leila Pereira?
Se a gestão de Paulo Nobre foi da reconstrução e consolidação e a de Maurício Galiotte foi da consolidação e conquistas, como ficará para história a gestão de Leila Pereira?
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