Uma análise da previsibilidade das ligas europeias e o cenário no Brasil



A temporada europeia do futebol praticamente está encerrada, apenas faltando a definição do campeão da Champions League e da Conference League nesta semana. Após todas as ligas terem seus campeões definidos no último final de semana, foi efetuado uma análise onde, nas 22 principais ligas, 15 campões foram os clubes com o maior valor do elenco em seus respectivos países. Nas 7 ligas restantes 3 clubes tinham o segundo elenco mais valioso, 3 clubes o terceiro e apenas em uma liga (Milan - Itália) tinha o quarto elenco mais valioso.

Esses dados demonstram quanto que o poder econômico está cada vez mais fazendo a diferença nos resultados. Nos últimos 10 anos esse cenário fica cada vez mais claro conforme abaixo demonstrado:


Espanha: Barcelona (5), Real Madrid (3), Atlético (2)

Inglaterra: City (5), Chealsea (2), United, Leicester e Liverpool (1)

Itália: Juventus (8), Inter e Milan (1)

Alemanha: Bayer de Munique (10)

França: PSG (8), Mônaco e Lille (1)

Portugal: Benfica (5), Porto (4), Sporting (1)

Holanda: Ajax (5), PSV (2), Feynoord (1)


Três dos quatro cenários acima são reproduzidos nas demais ligas do continente. 

O cenário similar à Holanda e Inglaterra, com um clube ganhando a maioria dos títulos e os demais títulos divididos entre 2 ou mais clubes se repete nas seguintes ligas:


Rússia:  Zenit (5)

Bélgica: Clube Brugge (5) 

Suécia: Malmoe (6)


Cenário similar à Espanha e Portugal, onde há 2 clubes praticamente dividindo as conquistas, se repete nos seguintes países:


Dinamarca: Copenhague (5) e Midtjylland (3)

República Tcheca: Viltoria Pilsen (5) e Sparta Praga (4)

Romênia: Cluj (5) e Steua Bucareste (3)

Suíça: Basel (5) e Young Boys (4)

Turquia: Fenerbache (4) e Besiktas (3)

Ucrânia: Shaktar Donetsk (6) e Dínamo de Kiev (3)


O cenário da Itália e França se repete na Grécia com o Olimpiakos (8), Áustria com Red Bull Salzuburgo (9), Croácia com o Dínamo Zagreb (9), Polônia com Légia Varsóvia (7) e Escócia com o Celtics (9). 

Só não há nenhum cenário igual à Alemanha, com um clube conquistando os 10 títulos de liga da década.

Com poucos clubes conquistando os títulos nacionais as ligas começam a ficar cada vez mais previsíveis, correndo o risco de perder o interesse por parte dos torcedores, transformando os resultados cada vez mais previsíveis.

Segundo um trabalho de pesquisadores da Universidade de Oxford publicado ao final de 2021 na revista Royal Society Open Science, os pesquisadores desenvolveram um modelo preditivo dos resultados das partidas de futebol, que foram aplicados a quase 88 mil jogos realizados em 11 ligas europeias entre 1993 e 2019.

Eles concluíram que os resultados dos jogos se tornaram bem mais fáceis de prever com antecedência do que no passado. O grau de acerto, que era de 60% no início do século, passou para 80% ao final da década passada. Esse efeito é ainda maior nas ligas mais ricas (Inglaterra, Alemanha, Espanha, Portugal), onde a abundância de dinheiro aumenta ainda mais as desigualdades de poder aquisitivo entre as equipes.

Com os mesmos clubes se classificando todos os anos para disputarem a Champions League, cada vez mais está surgindo uma preocupação entre vários clubes europeus sobre um grande GAP de faturamento que, juntamente com o Fair Play Financeiro, que limita os investimentos em contratações com base no faturamento dos clubes.

Em artigo publicado recentemente na Sports Pro Media, se chegou a conclusão que, com o sistema de premiação favorecendo os clubes das ligas mais ricas e com melhores posições no ranking da UEFA, há um grande risco do surgimento de uma Super Liga mesmo sem uma organização formal. O sistema tem benefícios embutidos para manter os maiores clubes das maiores ligas financeiramente competitivos, enquanto clubes de ligas médias e menores, impulsionados pela participação regular na Champions League começam a criar um abismo dentro do mercado interno.

Ao fazer um comparativo com o cenário do Brasil a tendência é que o a mesma situação comece cada vez mais a se reproduzir. Desde 2014 em 3 edições o campeão brasileiro foi o clube com o maior despesa com o futebol (18/19/20), em 3 edições foi o segundo clube com maior despesa (14/15/16), uma vez o terceiro (21) e uma vez o quarto (17). Podemos observa que, com exceção de 2021, desde 2018 os clubes que mais gastaram com o departamento de futebol foram campões, reduzindo as probabilidades de conquista de campeonato brasileiro para os demais competidores.

Com o aumento de clubes na Libertadores a probabilidade dos mesmos clubes sempre participarem da competição é muito alta. Com o aumento das premiações à partir de 2017 e com os novos acordos comerciais que dobraram as premiações desde 2019, os clubes que conseguem chegar mais longe na competição conseguem maiores premiações. 

O resultado deste cenário é possível de se observar no faturamento de 2021, com Flamengo e Palmeiras, finalistas da Libertadores do ano anterior, responsáveis por 27,5% de todo o faturamento dos clubes em 2021 e com a diferença de R$ 439 milhões entre o segundo colocado (Palmeiras) e o terceiro colocado (Grêmio). Enquanto apenas 2 clubes estão próximos a R$ 1 bilhão de faturamento, 7 clubes estão faturando entre R$ 380 e R$ 540 milhões.

A realidade atual do Brasil com base nos últimos 10 anos é bem diferente do que ocorre na Europa na atualidade, pois 6 clubes foram campeões brasileiros:

Cruzeiro, Corinthians, Palmeiras e Flamengo (2)

Fluminense e Atlético Mineiro (1)

Sabemos que a realidade atual de Fluminense e Cruzeiro são bem diferentes do que há 10 anos, portanto são 4 clubes que venceram o Brasileirão nos últimos 6 anos. Essa realidade já se aproxima do cenário da Premier League e da Holanda.

Veremos nos próximos anos se, com este cenário, ocorrerá no Brasil a mesma situação entre os 3 cenários europeus da atualidade, um clube ganhando a maioria dos títulos e 2 ou mais clubes conquistando os outros títulos (Inglaterra e Holanda), dois clubes dominantes (Espanha e Portugal) ou um clube com hegemonia quase que total como na França e na Itália. Devido às características atuais do mercado brasileiro considero que o cenário de França, Itália e Alemanha seja improvável de se repetir no Brasil.

Algumas novas variáveis podem alterar o cenário atual como a chegada das SAFs, a criação da Libra e uma possível reformulação do calendário. É provável que, com essas novas variáveis, alguns protagonistas sejam alterados mas os cenários devem ser similar aos dois mais recorrentes da Europa.

Para saber mais novidades no mundo esportivo siga o perfil @alemdas4linhasbr no Instagram

 



Comentários