O Brasileirão e Gatinho de Cheshire


Após a histórica virada do Atlético Mineiro sobre o Bahia no jogo da última quinta feira, definindo matematicamente a conquista do título brasileiro pelo Galo após 50 anos, surgiram alguns posts da mídia especializada criticando a forma como o jogo do título ficou praticamente escondido do grande público.

O jogo marcado para as 18h foi transmitido pela TV aberta apenas para Minas Gerais e, para as demais regiões, apenas quem era assinante do Premiere teve acesso ao jogo. 

Em linhas gerais as críticas convergem para o maior desafio que o campeonato brasileiro ainda carece, a visão do campeonato como um produto a ser consumido pelo maior número de torcedores possível.

Em breve estarei lançando um livro sobre um histórico dos últimos 50 anos do futebol brasileiro e apontando alguns pilares para mudanças do futebol brasileiro voltar a ter protagonismos em nível mundial, e um dos pilares é a visão mercadológica. Dentro dessa visão a criação de uma liga é fundamental para um mudança de cenário.

Não vou entrar em detalhes técnicos sobre a liga pois não sou expert sobre o tema mas, tomando como referência as principais ligas esportivas do mundo, a prioridade fundamental é o foco no torcedor e para isso a visão do produto como entretenimento é fundamental.  

No Sportainment o grande foco é o fã. Como o excesso de produtos e serviços dentro do segmento do entretenimento, para atrair a atenção dos torcedores e fãs é necessário entendê-los, visando ofertar os serviços e produtos de acordo com as suas demandas. Essa estratégia de foco no fã é denominada como Fancentric.

Uma liga profissional é uma empresa privada como em qualquer outro segmento que tem como função primordial criar e garantir que sejam respeitadas as regras e normas que aumentem o interesse dos torcedores e fãs pelos atletas, equipes, jogos, campeonatos e, como consequência, o faturamento e lucratividade das equipes.

Como qualquer empresa, o planejamento é um elemento chave na gestão estratégica, visando criar uma plataforma de negócios que pode ser ativada e integrada ao mix de produtos que uma organização oferece para um determinado público potencial de torcedores. No caso de uma liga, o principal produto ofertado é o campeonato que seus associados disputam durante a temporada.

Sem autonomia para poderem definir calendário, campeonatos, sistemas de disputa que sejam mais atrativos para torcedores, investidores, mídia e patrocinadores, os clubes brasileiros dificilmente poderão ter alguma alteração positiva do cenário atual.

Portanto, o grande objetivo da criação de uma liga é desenvolver um campeonato que tenha como objetivo aumentar o faturamento de todos os integrantes através do aumento de interesse do maior número possível de torcedores e fãs, de acordo com o mercado alvo pré-definido, atrair maiores investimentos das empresas de transmissão esportiva em suas diferentes plataformas e aumentar os investimentos e quantidade de parceiros comerciais.

As premissas básicas para que o campeonato brasileiro organizado por uma liga tenha sucesso em termos financeiros e seja atrativa para os torcedores são os seguintes:

- Campeonato brasileiro disputado durante toda a temporada (10 meses), com a grande maioria dos jogos sendo disputados nos finais de semana;

- Parada nas datas FIFA, evitando que os principais jogadores desfalquem seus clubes em uma série de jogos, desvalorizando o campeonato;

- Redução do número de jogos dos estaduais e da Copa do Brasil para os times evitarem escalação de times reservas ou mistos devido cansaço e priorização de campeonatos;

- Rodadas devem ser disputadas completamente por todos os participantes para evitar distorções na tabela do campeonato;

- Transmissão dos jogos efetuada pela liga para ter identidade visual e padronizado;

- Qualidade dos gramados, iluminação, placas ao redor do estádio padronizados;

- Venda dos jogos por pacotes diferentes e para diferentes emissoras, com a obrigação de transmissão dos jogos em nível nacional, principalmente nas rodadas finais, onde são definidos o campeão, classificados para as Copas Continentais e a fuga do rebaixamento;

- Padronização dos dias e horários das partidas, visando criar uma identidade de dia e horários dos jogos da Série A.

Com essas premissas provavelmente o país inteiro iria assistir num domingo as 16h a grande virada do Atlético bem como a grande festa no Mineirão no jogo seguinte. Além disso é possível que a diferença de pontos para o Flamengo não seria tão grande durante o campeonato, pois o Mengão estaria jogando com todos seus principais jogadores em quase todas as rodadas e não teria a diferença de jogos a menos, deixando o campeonato mais disputado até as últimas rodadas. O Palmeiras também poderia estar na disputa pelo título caso vários dos seus principais jogadores da defesa não estivessem disputando as eliminatórias nas mesmas datas do Brasileirão.

Com mais emissoras transmitindo em diferentes horários o torcedor poderia assistir vários jogos na mesma rodada, aumentando a possibilidade de mais exposição das marcas em nível nacional para uma maior audiência.

Com transmissão, iluminação e gramados de qualidade haveria uma identidade clara dos produto, sem contar que a qualidade das partidas poderiam ser de melhor nível técnico, pois menos jogos e melhor gramado promoveriam jogos mais intensos, disputados e emocionantes.

O torcedor que gosta de futebol acaba ficando sem ver as grandes jogadas do melhor time da temporada pois a TV prioriza jogos voltados para o público de cada estado e, na grande maioria das vezes, sem grande interesse para outros torcedores, que gostariam de ver Keno fazendo os golaços como contra os 5 minutos mágicos do jogo de Salvador e que poderia despertar interesse de garotos pelo futebol devido a Hulk, Keno, Nacho Fernandez, Zaracho e companhia. A mesma situação se repetiu em 2019, onde o grande Flamengo teve transmissão para parte do país, mas outros estados não puderam apreciar e se divertir com o melhor time brasileiro do século XXI.

Nunca será tarde para que todos os envolvidos com o produto futebol brasileiro parem para fazer um reflexão sobre qual produto deve ser ofertado de acordo com os interesses dos torcedores, caso contrário, a cada temporada encerrada, o futebol brasileiro ficará cada vez mais sem rumo por falta de uma visão mercadológica.

Sem essa visão o futebol brasileiro permanecerá no eterno looping do diálogo de Alice com o Gatinho de Chelshire no clássico livro de Lewis Carrol:

Alice: “Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para sair daqui?”

Gato: “Isso depende bastante de onde você quer chegar”

Alice: “O lugar não importa muito…”

Gato: “Então não importa o caminho que você vai tomar”

A falta de definição sobre qual caminho tomar tem como consequência jogos do clube campeão escondidos em dias e horários fora do convencional, times desfalcados dos seus principais jogadores em várias rodadas, excesso de jogos sem interesse e com baixa qualidade e intensidade, falta de formação de novos ídolos.

Qual caminho o futebol brasileiro deve tomar para sair dessa situação?




 

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