O calendário do futebol brasileiro é 60+



O final da temporada do futebol brasileiro terminou com um choque de realidade no dia 11/12 no estádio 974 em Doha: o Botafogo, campeão da Copa Libertadores, chegou se arrastando no Catar após 74 jogos na temporada e, com um time mesclado, não foi páreo para o Pachuca, campeão da Conca Champions, sendo derrotada no Dérbi das América com um sonoro 3 a 0.

A reflexão dos significados e mensagens desta partida foi muito bem analisada pelo excelente Carlos Eduardo Mansur, onde ele menciona que todos deveriam se preocupar com a derrota do Botafogo no Catar. No texto mais uma vez ele coloca luz no calendário e as mazelas que um clube brasileiro tem que passar em uma temporada vencedora, como foi o caso do Botafogo em 2024. 

Junto com vários estudiosos sobre o tema procuro sempre levantar a bandeira da urgência de uma completa reestruturação do calendário que, entre outros pontos, é peça fundamental para quem deseja uma salto de qualidade no futebol brasileiro em termos de qualidade e valor.

Para mais uma vez demonstrar quanto é desumano o nosso calendário, segue abaixo a tabela com os 25 clubes que mais jogaram na temporada 2024:

Clube

Total

1

Botafogo

75

2

Athletico

73

3

Atlético Mineiro

73

4

Fortaleza

73

5

Corinthians

72

6

Flamengo

71

7

Bragantino

70

8

Bahia

69

9

São Paulo

68

10

CRB

67

11

Fluminense

67

12

Palmeiras

67

13

Grêmio

66

14

Sport

65

15

Internacional

64

16

Juventude

62

17

Vila Nova

62

18

Atlético Goianiense

61

19

Paysandu

61

20

Vasco da Gama

61

21

Vitória

61

22

Ceará

60

23

Cuiabá

60

24

Goiás

60

25

Brusque

59

Conforme informando no início deste post, o Botafogo foi o clube que mais partidas disputou na temporada, e isso foi um dos principais motivos para que o clube tivesse o desempenho que culminou na derrota para o Pachuca no Itercontinental da FIFA. O Fogão disputou a final da Copa Libertadores jogando a competição desde a segunda fase da classificatória da Copa Libertadores (4 jogos). Esses 4 jogos eliminatórios mais o Dérbi das Américas colocaram o Glorioso no topo do ranking.

Athletico, Atlético Mineiro e Foraleza jogaram apenas 2 jogos a menos que o Botafogo.É até compreensível que o Galo atingisse este número de jogos pois disputou a final dos três campeonatos que disputou: Mineiro, Copa do Brasil e Copa Libertadores.

O Fortaleza também teve desempenho semelhante ao Galo pois disputou a final do estadual e da Copa do Nordeste. O Athletico, também disputou a final do estadual e chegou até as quartas de final da Copa Sudamericana.

Corinthians e Flamengo também foram longe em algumas competições. O Timão chegou à semifinal da Copa do Brasil e da Sudamericana. Já o Mengão disputou a final do estadual e da Copa do Brasil.

Do sétimo ao décimo quinto colocado no ranking são clubes que jogaram muitos jogos pelos estaduais, Copa do Nordeste, Copa Verde e Copa do Brasil. Nesse recorte não há nenhum clube que tenha chegado longe nas copas nacionais e continentais, com exceção do Vasco da Gama. É possível notar a presença de sete clubes destacados em amarelo, que são clubes que disputaram a Série B do Brasileirão. 

Entre os 25 clubes não há nenhum clube europeu, o que significa que os clubes mais ricos do mundo jogaram menos que 18 clubes da série A e 7 clubes da série B do Brasileirão, o que acaba demandando elencos maiores e, consequentemente, maiores despesas com salários de jogadores em proporção aos principais clubes europeus, sem contar o excesso de contusões, jogos com menos qualidade e intensidade entre outros.

Muitos criticam a postura de vários clubes que acabam priorizando as Copas ao invés do campeonato brasileiro mas, devido o cenário desafiador que se apresenta na temporada, fica complicado fazer qualquer juízo de valor nas tomadas de decisão dos gestores.

Apenas na segunda metade do ranking aparecem os clubes europeus com os jogos da temporada 23/24:

Clube

Total

26

Crciúma

59

27

Manchester City

59

28

Liverpool

58

29

Operário PR

57

29

Atalanta

56

31

Real Madrid

55

32

Atlético Madrid

54

33

Botafogo RP

54

34

Coritiba

54

35

Roma

54

36

Santos

54

37

Amazonas FC

53

38

Avaí

53

39

Barcelona

53

40

Manchester United

53

41

Milan

52

42

Novorizintino

52

43

Arsenal

51

44

Chealsea

51

45

Cruzeiro

51

46

Ituano

51

47

Newcastle

51

48

Guarani

50

49

Lazio

50

50

Mirassol

50

O primeiro desta segunda parte ainda é um clube brasileiro, o Criciúma, que fez a final do estadual com o Brusque, ambos com 59 jogos.

Os  quatro clubes europeus que aparecem no ranking disputaram as finais das Copas Nacionais e Continentais. O clube europeu com mais jogos na temporada 23/24 foi o Manchester City com 59 jogos, mesmo número que Criciúma e Brusque. Os ingleses chegaram à final da Copa da Inglaterra e do Mundial da Fifa, o Liverpool chegou à final da Copa da Liga, o Atalanta disputou a final da Copa Itália e da Europa League e o Real Madrid chegou à final da Champions League. 

Entre os principais países europeus com 20 clubes na primeira divisão, a Inglaterra é o único que tem duas copas na temporada (Copa da Liga e a Copa da Inglaterra) e este é o principal motivo de quase sempre os clubes ingleses serem os que mais jogam no continente.

Os quatro clubes europeus que mais jogos disputaram na temporada chegaram as finais das Copas e, mesmo assim, jogaram menos de 60 jogos, diferentemente de vários clubes brasileiros que, devido principalmente aos estaduais e aos jogos das copas nacionais serem no formato ida e volta, tiveram um calendário com mais jogos do que as grande estrelas internacionais.

Fica claro que os clubes europeus que não chegam as finais das copas disputaram no máximo 55 jogos. Para os brasileiros com o mesmo cenário, o mínimo é de 50 jogos por temporada.

Dezenove clubes da série A e oito clubes da série B jogaram mais que o Real Madrid, finalista da Champions League e da Atalanta, finalistas da Europa League e da Copa Itália. 

Menos jogos no calendário significa:

  • maior tempo de pré-temporada;
  • oportunidade de fazer amistosos internacionais;
  • clubes melhores preparadas e treinados para a temporada;
  • melhoria da qualidade e da intensidade dos jogos;
  • menos necessidade de elencos inchados;
  • menor risco de muitas lesões;
  • campeonatos com jogos com mais atratividade;
  • poucos jogos com clubes poupando seus principais jogadores nas ligas.

Na temporada 24/25 já estamos vendo os jogadores europeus reclamando do aumento de jogos, pois a Champions League aumentou para 8 jogos a fase inicial e terá um play off com mais 2 jogos antes das oitavas de final. Além disso teremos o Super Mundial de Clubes da Fifa em junho de 2025, onde os finalistas jogarão 7 jogos. Portanto, serão no mínimo 9 jogos a mais para os finalistas do Mundial, o que provavelmente fará com que alguns clubes europeus possam ficar entre os 15 primeiros do ranking, algo inédito para este ranking.

Como sempre bato nesta tecla o tema calendário precisa a voltar a ser debatido com mais seriedade por parte dos dirigentes. Propostas racionais e inteligentes já foram muito bem desenhadas, inclusive fiz parte de uma delas no projeto do Futbox e é necessário que com a eventual formação de uma liga nacional, este tema seja profundamente debatido para que o produto futebol brasileiro seja muito mais valorizado, conseguindo aproveitar todo o potencial e demanda reprimida para consumo em várias maneiras.

Enquanto não houver essa mudança, para os principais clubes do Brasil o mínimo de jogos é 60 ou mais, um escândalo!!



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